Academia de defesa do Japão defende três linhas vermelhas ante Pequim

Yoshihide Yoshida propõe três linhas vermelhas ante a China em diálogos da aliança Japão–EUA em Tóquio, às vésperas de cúpulas Trump–Xi.
Ilustração: 鱼 木 (Pexels)
Em Tóquio, diálogos anuais da aliança Japão–Estados Unidos colocaram a China no centro do debate, embora Pequim não estivesse à mesa. No Diálogo do Monte Fuji, o presidente da Academia Nacional de Defesa do Japão, Yoshihide Yoshida, pediu o estabelecimento de “três linhas vermelhas” que não podem ser cruzadas diante dos desafios de segurança na região.
Os fóruns de sexta e sábado reuniram formuladores de política, acadêmicos e empresários dos dois países, segundo o Nikkei Asia. O encontro ocorre às vésperas de cúpulas em que o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, devem se encontrar no fórum da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), em Shenzhen, no mês que vem, e na cúpula do Grupo dos 20, em Miami, em dezembro.
O que aconteceu
Yoshida, que chefiou o Estado-Maior Conjunto das Forças de Autodefesa do Japão até agosto de 2025, apresentou a proposta no painel de abertura do sábado. A primeira linha vermelha é a defesa da primeira cadeia de ilhas — conceito que liga o arquipélago japonês a Taiwan e às Filipinas — com o compromisso militar contínuo dos Estados Unidos, condição que descreveu como essencial para “opor-se à hegemonia regional da China”.
Essa linha, disse, precisa ir além do que o então secretário de Estado americano Dean Acheson traçou em janeiro de 1950, mapa que excluiu a península coreana e Taiwan. O objetivo seria proteger “sustentabilidade e resiliência” não só do Japão, dos EUA, da Coreia do Sul e de Taiwan, mas também de aliados como Filipinas e Austrália.
A segunda condição inegociável, segundo o chefe da academia, é manter a superioridade nuclear americana em relação à China. Pequim é vista como capaz de alcançar paridade com Washington em armamento nuclear estratégico na década de 2030. A terceira prioridade é preservar a superioridade tecnológica do Ocidente: a China avança rápido e, em áreas como a tecnologia quântica, pode já estar à frente.
O Diálogo do Monte Fuji foi organizado pelo Japan Center for Economic Research e pelo Japan Institute of International Affairs, em articulação com um simpósio na sexta-feira coorganizado pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS) e pelo Nikkei.
Randall Schriver, presidente do Institute for Indo-Pacific Security e ex-assistente do secretário de Defesa dos EUA para o Indo-Pacífico, alertou que atividades chinesas já teriam ido “bem além” da primeira cadeia de ilhas e falou em uma “primeira cadeia de ilhas-plus”. Ele também apontou o que chamou de “eixo de autocracia”, liderado pela China com Rússia, Coreia do Norte e Irã — noção que Pequim rejeita, segundo o relato.
Masataka Okano, diplomata e ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional do Japão, advertiu que “o status quo no Leste Asiático está mudando de forma rastejante e discreta”. O país enfrenta, segundo o Nikkei Asia, quase um ano de forte pressão política da China após declarações da primeira-ministra Sanae Takaichi no Parlamento, em novembro passado, sobre o risco de uma contingência em Taiwan. Christopher Landau, vice-secretário de Estado dos EUA, enviou mensagem em vídeo reconhecendo o fortalecimento militar chinês e reafirmando o compromisso americano com a segurança regional, em meio a ceticismo japonês diante do aparente aquecimento entre Trump e Xi em três encontros no último ano.
O que isso pode mudar
Se a lógica das “três linhas vermelhas” ganhar eco em Tóquio e em Washington, a aliança tende a ser medida menos por gestos de cúpula e mais por limiares concretos — presença na primeira cadeia de ilhas, equilíbrio nuclear e corrida tecnológica. Especialistas nos fóruns já alertam que uma eventual reaproximação parcial EUA–China poderia abrir espaço para Pequim tentar afastar Washington de Tóquio.
Com Trump e Xi previstos em Shenzhen e em Miami, o risco é que a sinalização bilateral ofusque a coordenação com aliados. Yoshida e outras vozes nos diálogos rejeitam ceder o Indo-Pacífico à China; o teste será se as “linhas vermelhas” viram política ou permanecem diagnóstico de um oficial de defesa.
Fontes: Nikkei Asia
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