Acordo com a Bélgica reforça gás do Reino Unido no inverno a 10p por mês

Reino Unido mantém capacidade no gasoduto belga para o inverno 2026/27 a 10 pence por mês nas contas; Ofgem e Neso alertam para riscos além do curto prazo.
Foto: Oleksiy (Pexels)
Após a aprovação do campo Jackdaw no Mar do Norte, o Reino Unido firmou um acordo com a Bélgica para manter capacidade de gás em um gasoduto de interconexão neste inverno, caso ocorra um evento de estresse descrito pelos reguladores como de “baixa probabilidade, mas alto impacto”. A análise do colunista Nils Pratley no The Guardian, publicada em 23 de outubro de 2026, lembra que o país ainda importa quase 60% do gás que consome e que o combustível precisa vir de algum lugar.
O arranjo é apresentado como medida de precaução. O custo para o consumidor seria de 10 pence por mês nas contas — cerca de 1,19 libra por domicílio ao ano — para pagar a Interconnector Limited, dona belga do duto, a manter compressores capazes de enviar grandes volumes ao Reino Unido com urgência, se necessário. Sem o acordo, a empresa já havia alertado que reduziria a capacidade, em parte porque o grande gasoduto foi pouco usado na prática no ano passado.
O que aconteceu
Segundo Pratley, o cenário imaginado para justificar o reforço é exigente e pode nunca se materializar: uma peça crítica de infraestrutura — como os dois terminais de importação de gás natural liquefeito (GNL) em Milford Haven — fora de operação durante uma onda de frio prolongada, com demanda muito alta. O lado de “alto impacto” diz respeito a ter gás suficiente para operar usinas termelétricas a gás a plena carga, se for preciso manter o abastecimento elétrico.
O regulador Ofgem classificou a intervenção como a única disponível no momento para o inverno de 2026/27, com benefícios de segurança de fornecimento nos quatro anos seguintes. A opção era a Bélgica — e qualquer acordo futuro sobre o gasoduto holandês — ou nada. O mesmo órgão alerta que o entendimento “não elimina a necessidade de medidas adicionais lideradas pelo governo” para a resiliência do sistema de gás no médio e longo prazo.
Há quase um ano, o National Energy System Operator (Neso) alertou para um “risco emergente à segurança do abastecimento de gás” em 2030. O governo prometeu fazer “o que for preciso” para evitar um aperto, mas, na leitura de Pratley, pouco avançou: uma resposta intermediária veio em agosto, sem cronograma, e a resposta final só é esperada para o ano que vem.
O relatório de perspectiva de inverno da National Gas, publicado na sexta-feira e citado pelo Guardian, aponta que, com a ajuda do acordo belga, a visão para este inverno é positiva. A companhia também observa que, mesmo com o consumo anual em leve queda, os picos de demanda seguem tão altos quanto antes, impulsionados pela geração a gás quando a produção de renováveis está baixa.
Pratley discute caminhos como mais armazenamento, mais terminais de GNL ou ambos, e cita opções como a instalação Rough da Centrica (com fechamento previsto para a próxima primavera), o projeto Bains da dCarbonX, cavernas de sal em terra ou compra antecipada de GNL no estilo alemão. Nada disso se constrói depressa, enquanto o risco potencial de 2030 se aproxima. Acordos de última hora com a Bélgica, na avaliação do colunista, não seriam um remédio permanente.
Impacto na prática
No bolso, o acordo pode se traduzir em um acréscimo de 10 pence por mês nas contas de energia dos domicílios britânicos, segundo a coluna, em troca de manter aberta uma válvula de emergência via Bélgica. Em tese, isso reduz o risco de falta de gás para usinas em um cenário extremo de frio e falha de terminais de GNL, o que poderia afetar o abastecimento elétrico no Reino Unido.
Para o sistema energético britânico, o inverno de 2026/27 pode ficar mais confortável com a capacidade belga preservada, como sugere a National Gas. Hipoteticamente, se o governo demorar a decidir sobre armazenamento ou terminais, o país pode chegar mais perto do risco apontado pelo Neso para 2030 — não como certeza, mas como alerta já registrado pelos operadores e pelo regulador.
Em um horizonte mais amplo, o debate britânico sobre importar quase 60% do gás e depender de interconexões e GNL pode, em tese, interessar a outros países europeus que também equilibram picos de demanda e renováveis variáveis — embora as fontes desta reportagem tratem especificamente do Reino Unido e do acordo com a Bélgica.
O raciocínio de Pratley é de que o seguro belga parece barato diante do risco de alto impacto, mas não substitui escolhas estruturais. Se o ritmo de decisão continuar lento — como, na leitura do colunista, ocorreu com Jackdaw —, o Reino Unido pode continuar recorrendo a reforços pontuais sem resolver a fragilidade de médio prazo do sistema de gás.
Fontes: The Guardian Business
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