Autor na Fast Company defende vida maior que o emprego após crise na carreira

Kuan-lin F. Liu relata na Fast Company como a escrita e projetos paralelos restituíram propósito após crise de confiança em consultoria imobiliária em 2020.
Foto: Mikhail Nilov (Pexels)
Em ensaio publicado nesta sexta-feira (23) pela Fast Company, o autor Kuan-lin F. Liu defende que a vida precisa ser maior do que o emprego. Segundo o texto, um trabalho difícil abalou sua confiança — e a escrita devolveu um senso de propósito que a rotina profissional, sozinha, não oferecia.
Liu descreve o que chama de geração de “multihífenes”: jornada das 9 às 17, projeto paralelo e o hábito de documentar esse percurso. Para ele, canalizar energia em várias frentes — analítica, estratégica ou criativa — pode ser catártico e recompensador, ainda quando o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal parece quase impossível.
O que aconteceu
No início dos anos 2000, lembra o autor, só celebridades acumulavam papéis e identidades públicas. Hoje, diz, muitos amigos e ele próprio tentam conciliar emprego formal com criação de conteúdo e artigos de opinião. Ao assumir um posto de consultor de gestão, Liu já previa o desafio de manter publicações no LinkedIn e textos opinativos fora do expediente — atividades que, segundo o relato, ele genuinamente aprecia.
Ele admite não perseguir o equilíbrio clássico entre trabalho e vida. Neste dia e idade, escreve na Fast Company, esse equilíbrio está quase impossível — e ele não o almeja. Abrir mão da criação de conteúdo e dos artigos de opinião, porém, não era uma opção.
O ponto de virada, na narrativa, vem do começo de 2020. Liu trabalhava em consultoria de imóveis comerciais e sentia que havia falhado. Durante boa parte da vida, conta, equiparava o valor próprio ao desempenho na escola ou no trabalho. Como costumava ir bem, estava acostumado a se sentir bem consigo mesmo.
No mercado imobiliário, pela primeira vez, não tinha as respostas nem sabia como obtê-las. A realidade do cargo, afirma, era tão diferente do que aprendera no mestrado em imóveis que se via correndo atrás desde o início. Estudava modelos financeiros do gestor e dedicava fins de semana a aspectos específicos do mercado de Hong Kong; ainda assim, diante de um problema novo, não sabia por onde começar.
A frustração visível do gestor, que questionava o trabalho e as premissas, reforçou o silêncio. Liu conta que passou a evitar falar nas interações, a deixar que o superior desse a resposta e, aos poucos, a acreditar que nada tinha a contribuir.
Com a pandemia de coronavírus e a violência contra asiáticos, sentiu-se compelido a escrever sobre sinofobia. O texto foi publicado pela Cable News Network (CNN). Na leitura do próprio ensaio, a escrita fora do emprego restituiu um propósito que o cargo, naquele momento, não dava.
Por isso, diz o autor, ainda reserva tempo para projetos fora do expediente das 9 às 17 — não como luxo, mas como âncora de identidade e de energia criativa.
O que isso pode mudar
Se a tese do autor se espalhar entre profissionais sob pressão semelhante, o debate sobre carreira pode deixar de girar só em torno de equilíbrio e passar a valorizar saídas paralelas que sustentem autoestima quando o emprego falha. Hipoteticamente, empresas e gestores poderiam enfrentar uma geração menos disposta a fundir identidade e cargo — e mais atenta a espaços de expressão fora do organograma.
Isso, pelo próprio relato, não elimina a dificuldade de conciliar jornadas intensas com projetos pessoais. Pode, contudo, reduzir o risco de silêncio e de erosão de confiança quando a performance no trabalho vacila. O aviso implícito do ensaio é de cautela: tratar o emprego como única medida do eu tende a amplificar crises profissionais em crises de valor próprio.
Fontes: Fast Company
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