Banco do Canadá prevê inflação bem mais alta com petróleo em alta, diz Macklem

Tiff Macklem, às margens do FMI em Bangkok, sinaliza revisão forte da projeção de inflação e abre espaço para alta de juros se a pressão de preços se espalhar além dos combustíveis.
Redação Mundo dos Negócios · 17/10/2026
Foto: DΛVΞ GΛRCIΛ (Pexels)
O governador do Banco do Canadá, Tiff Macklem, disse neste sábado, 17 de outubro de 2026, que a instituição deve elevar de forma significativa a projeção trimestral de inflação ainda neste mês, em meio a preços persistentemente altos de petróleo bruto e derivados. As novas previsões de inflação e crescimento entrarão na decisão de política monetária marcada para 28 de outubro.
Macklem falou a jornalistas em teleconferência a partir de Bangkok, onde participa das reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional. Segundo a agência Reuters, ele avaliou que, com o conflito no Oriente Médio em curso, embarques ainda restritos e danos à capacidade de refino, o risco de a inflação se alastrar e se tornar mais persistente aumentou. O banco central canadense tem meta de inflação de 2% e, nas palavras do dirigente, está preparado para ajustar a política monetária conforme necessário.
Na mesma linha, reportagem da Canadian Press publicada no sábado reforça que Macklem espera um panorama de preços “bem mais alto” do que o desenhado na última previsão, de julho, quando a autoridade projetava desaceleração da inflação para cerca de 2,5% no segundo semestre deste ano. No país, a inflação ficou em 3% por dois meses consecutivos.

O que aconteceu
As declarações ocorrem em um contexto de choque energético global ligado à guerra no Oriente Médio. Macklem citou a escalada do conflito — incluindo ataques dos houthis ao Arábia Saudita —, danos à capacidade de refino na região do Golfo e o fechamento do Estreito de Ormuz como fatores que, na avaliação dele, não indicam alívio imediato para os preços internacionais do petróleo. Esses movimentos tendem a se refletir no que os canadenses pagam por gasolina, diesel e óleo de aquecimento.
O governador também observou que a resiliência da economia mundial, embora tenha surpreendido positivamente diante das guerras no Irã e na Ucrânia, das perturbações comerciais e dos custos de financiamento mais elevados, está cada vez mais “sob tensão”. Entre os mecanismos que ajudaram a amortecer o choque, ele mencionou liberações de reservas estratégicas de petróleo, mas ressaltou que esse recurso não pode ser usado indefinidamente.
Até aqui, o Banco do Canadá vinha “olhando através” dos efeitos inflacionários de curto prazo ligados à guerra no Irã, sem elevar a taxa de juros de política monetária. Macklem, porém, sinalizou crescente preocupação e disposição para reagir com altas se houver sinais de que as pressões de preços se espalham além dos combustíveis. Sobre a reunião de 28 de outubro, formulou a pergunta que orientará a decisão: a inflação voltará à meta por conta própria ou será preciso subir os juros para “empurrar” o caminho dos preços de volta ao alvo?
A autoridade monetária também comentou o cenário doméstico: apesar de ventos contrários vindos de tarifas dos Estados Unidos e da instabilidade geopolítica, Macklem manifestou alguma confiança na capacidade do Canadá de resistir, citando estabilidade relativa do dólar canadense e sinais de recuperação de investimento. Na segunda-feira, 19 de outubro, o país receberá o relatório de inflação de setembro do Statistics Canada, que dará ao banco uma leitura mais recente de como os custos globais chegam aos preços internos.
Impacto na prática
Para famílias e empresas no Canadá, a combinação de combustíveis mais caros e inflação já acima da meta pode, em tese, pressionar o orçamento do dia a dia — especialmente despesas ligadas a transporte e aquecimento — enquanto a autoridade monetária revisa suas projeções. Se a inflação deixar de ser um choque concentrado em energia e passar a contaminar outros preços e salários, os casos descritos por Macklem sugerem maior probabilidade de endurecimento monetário, o que pode elevar o custo de crédito hipotecário, empresarial e ao consumidor.
No plano internacional, a fala reforça como governos centrais acompanham o mesmo dilema: preços da energia sustentados por tensão no Oriente Médio e rotas marítimas críticas versus mandatos de estabilidade de preços. A Reuters registra que, até este sábado, os mercados não precificavam alteração na reunião de 28 de outubro nem na última decisão monetária do ano, em dezembro, mas sim aumentos da ordem de 100 pontos-base ao longo do ano seguinte — leitura que pode mudar conforme novos dados de inflação e o próprio comunicado do banco.
Macklem também alertou que governos dispõem de menos espaço fiscal para reagir aos choques e que precisariam ajustar políticas para reconstruir essa margem, em um ambiente em que banqueiros centrais buscam distinguir efeitos temporários de combustível de uma desancoragem mais ampla das expectativas de inflação.
Na hipótese de que o choque energético se prolongue sem dissipar pressões mais amplas, o discurso de Macklem indica que o Banco do Canadá pode deixar de apenas observar o movimento dos preços do petróleo e passar a tratar a convergência da inflação para 2% como tarefa ativa — com a reunião de 28 de outubro como primeiro marco público após a revisão das projeções e a divulgação dos números de setembro.
Fontes: WTVB; Reuters (via Devdiscourse); The Canadian Press (via CityNews Toronto)
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