Capitalismo acionário falha com acionistas, aponta caso Kraft Heinz

Capitalismo acionário falha com acionistas, aponta caso Kraft Heinz

CEO da Kraft Heinz pausa cisão e reaplica US$ 600 mi no negócio; Rita McGrath argumenta que maximizar valor no curto prazo pode destruir retorno.

Foto: Nuno Magalhães (Pexels)

Em fevereiro, o novo presidente-executivo da Kraft Heinz, Steve Cahillane, interrompeu a cisão planejada da companhia — o movimento que, segundo o discurso aos investidores, deveria “destravar valor para o acionista” — e anunciou US$ 600 milhões extras em marketing, vendas e pesquisa e desenvolvimento. No mesmo comunicado, a empresa reportou prejuízo de quase US$ 6 bilhões em 2025, puxado por impairments de ágio.

Para a professora e colunista Rita McGrath, na Fast Company, o episódio ilustra uma tese maior: o chamado capitalismo acionário, na prática financeira que prevalece há décadas, muitas vezes acaba corroendo exatamente o valor de longo prazo que promete entregar aos donos do capital.

O que aconteceu

Cahillane estava há pouco mais de seis semanas no cargo quando pausou a quebra da Kraft Heinz em duas empresas listadas. Em paralelo, sinalizou reinvestimento no negócio operacional, em vez de acelerar a engenharia societária que o mercado já tratava como caminho certo para valorizar as ações.

McGrath lembra o histórico de uma Kraft Heinz altamente financeirizada. Em 2019, a companhia registrou baixa contábil de US$ 15,4 bilhões nas marcas Kraft e Oscar Mayer, cortou o dividendo e informou que a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (Securities and Exchange Commission, ou SEC) investigava suas práticas contábeis. Até Warren Buffett, sócio histórico via Berkshire Hathaway, classificou a aposta como “um erro”.

O texto situa a decisão de Cahillane contra a maquinaria do “maximizar o valor do acionista”. Em 1970, Milton Friedman defendeu que gestores deveriam administrar as empresas conforme os desejos dos acionistas — em geral, ganhar o máximo possível dentro das regras básicas da sociedade. Na prática corporativa contemporânea, isso se traduziu em pressão para subir o preço da ação o mais alto e o mais rápido possível.

Os mecanismos, segundo McGrath, são conhecidos: errar a orientação trimestral por um centavo pode tirar bilhões da capitalização de mercado; a remuneração de executivos fica atada a preços de curto prazo e ao lucro por ação; cerca de 43% dos CEOs relatam horizonte de planejamento de três anos ou menos; e, quando sobra caixa, o destino padrão é devolver ao mercado. Em 2025, companhias do índice S&P 500 gastaram cerca de US$ 1 trilhão só em recompras de ações.

A autora trata essas práticas como se fossem lei da natureza — e argumenta que, na verdade, equivalem a um acordo que “come o próprio milho de semente”: cortam investimento, inovação e capacidade competitiva em nome de resultados imediatos que, no fim, prejudicam os próprios acionistas.

O que isso pode mudar

A pausa da cisão e o retorno do gasto em marketing, vendas e P&D poderiam marcar, na leitura de McGrath, o início de uma inflexão: um executivo concluindo que o mais valioso para os donos é voltar a investir no futuro do negócio, e não apenas “destravar valor” via cisão ou engenharia financeira.

Se essa lógica ganhar tração, conselhos e investidores talvez precisem rever incentivos que premiam o trimestre em detrimento da década. Ainda assim, o efeito depende de resultados concretos na Kraft Heinz e de outros casos semelhantes. Sem mudança na governança e na remuneração, a pressão por recompras, metas de curto prazo e cisões “criadoras de valor” provavelmente continua a moldar o comportamento das grandes listadas.

Fontes: Fast Company

Fontes: Fast Company

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