Caracas registra queda forte do crime após milhares de mortes em operações policiais

A capital venezuelana deixou de ser símbolo de violência extrema, mas investigadores da ONU e famílias de vítimas apontam execuções extrajudiciais e a Venezuela tenta sair do TPI.
Foto: Rodolfo Gaion (Pexels)
Caracas vive hoje uma sensação de segurança que contrasta com o passado recente, quando a cidade chegou a ser associada à violência extrema. Assaltos de rua tornaram-se raros e sequestros — inclusive os relâmpago — praticamente sumiram, enquanto a taxa de homicídios despencou nos últimos anos.
Segundo reportagem publicada neste domingo (18) com base no trabalho do jornalista Simon Romero, do The New York Times, e reproduzida pelo InfoMoney, essa virada representa uma das maiores reviravoltas em segurança pública na América Latina — embora o texto sublinhe que fatores distintos dos adotados em El Salvador, sob Nayib Bukele, explicam parte do fenômeno na Venezuela.
Milhares de mortes em operações policiais acompanharam a queda dos índices. Ao mesmo tempo, o país busca deixar o Tribunal Penal Internacional (TPI) enquanto a corte investiga a campanha. O governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, teria apoiado a medida em um contexto de pressão internacional sobre o tribunal.
O que aconteceu
Miguel Dao, negociador profissional de sequestros e ex-diretor do equivalente venezuelano do FBI, disse ao NYT que chegou a atuar na libertação de três reféns em um único dia, mas que há três anos não participa de negociações desse tipo. Crítico do governo autoritário, Dao, de 77 anos, classificou a redução da criminalidade como “conquista sob qualquer critério”, mas acrescentou: “Só não sei se ela vai durar.”
Investigadores das Nações Unidas afirmam que esquadrões policiais, ignorando o sistema judicial, executaram milhares de jovens pobres em campanha voltada ao grupo demográfico mais propenso a ingressar em gangues. A migração em massa durante o colapso econômico também teria retirado do país parte dos integrantes dessas organizações.
Há cerca de uma década, Nicolás Maduro lançou as Operações de Libertação do Povo, com incursões militarizadas em áreas de baixa renda. Em vez de processar suspeitos, a estratégia se apoiou em execuções extrajudiciais, muitas registradas como “resistência à autoridade”. Pesquisadores da ONU estimam que as forças de segurança mataram ao menos 6.856 pessoas em 18 meses, entre 2018 e 2019, com manipulação frequente de cenas de crime.
Em julho, a Venezuela anunciou a retirada do TPI. Em janeiro, a líder venezuelana Delcy Rodríguez — que substituiu Maduro na liderança do país em 2026, segundo a reportagem — citou taxa de homicídios de 3 mortes por 100 mil habitantes em 2025. Criminologistas questionam o dado, e o governo não teria apresentado estatísticas que o sustentem.
O relato inclui o caso de Millanyela Fernández, que afirmou que o filho Richard Jesús Briceño, de 23 anos e sem antecedentes, foi morto por policiais no bairro La Vega em 2021. Terremotos devastadores em junho expuseram a fragilidade da tranquilidade, mas a criminalidade teria permanecido sob controle; visitantes e moradores descrevem praças movimentadas à noite e retomada de passeios guiados em áreas antes evitadas.
Impacto na prática
Para quem vive ou visita Caracas, a mudança pode significar menos medo imediato nas ruas e mais circulação noturna em bairros antes considerados proibidos — um contraste que a reportagem compara, em percepção de segurança, com metrópoles como Bogotá ou São Paulo. Em tese, isso pode favorecer turismo local e a retomada de atividades que dependiam de confiança no espaço público.
O custo humano e institucional, porém, permanece no centro do debate internacional. Famílias de vítimas das operações policiais seguem tentando reconstruir a vida, enquanto especialistas em direito sugerem que o TPI pode manter jurisdição sobre crimes já em investigação, apesar da tentativa de saída da Venezuela. A influência do governo Trump sobre Caracas, somada a sanções anunciadas contra o tribunal após o Nobel da Paz a Navi Pillay, pode, em hipótese, enfraquecer o escrutínio externo sobre as políticas de segurança.
Na economia cotidiana, a reportagem aponta outros fatores: menos dinheiro e bens para roubar após o colapso, uso informal do dólar e pagamentos eletrônicos que reduziram assaltos ligados a espécie, além de intervenções em presídios que funcionavam como bases de gangues. Alguns moradores descrevem uma segurança “institucionalizada”, em que polícia e militares controlariam territórios e esquemas de extorsão no lugar das gangues de rua.
Se o plano anunciado por Rodríguez de remover postos de controle policiais se consolidar, a calma atual — vista por parte da população como alívio temporário sustentado por políticas duras — pode, em tese, ser testada nos próximos meses, especialmente com pouca propaganda oficial sobre os índices e com risco de consequências para quem critica as políticas de segurança em público.
Fontes: InfoMoney (matéria de Simon Romero, The New York Times)
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