CEO da Moderna mira parcerias na China apesar de tensões geopolíticas

Stephane Bancel diz à Nikkei que há discussões na Grande China e mira doenças infecciosas e câncer.
Foto: 鱼 木 (Pexels)
A Moderna, biotecnologia americana conhecida pela vacina de ácido ribonucleico mensageiro (mRNA) contra a covid-19, discute parcerias na China ao ampliar o escopo além da pandemia, afirmou o presidente-executivo Stephane Bancel à Nikkei Asia em 22 de outubro de 2026, a partir de Hong Kong.
Bancel disse que a China e a Grande China são “realmente importantes” para a companhia e que há “várias discussões em andamento” sobre possíveis acordos, num momento em que a biotecnologia se tornou um dos campos mais disputados na rivalidade tecnológica entre as duas maiores economias do mundo.
O que aconteceu
O foco mais imediato da Moderna na região, segundo o CEO, são as doenças infecciosas — covid-19, gripe e vírus sincicial respiratório (VSR). Com o envelhecimento da população, a demanda por prevenção e tratamento tende a crescer, e a empresa “gostaria de ter um papel aí”, “muito provavelmente” via parceria.
Nos Estados Unidos, o governo tem buscado reduzir a dependência de cadeias biotecnológicas chinesas e avalia restrições a investimentos e licenças envolvendo empresas do setor na China, enquanto laboratórios globais seguem à procura de candidatos a medicamentos no país. Pequim apertou o controle sobre o setor e propôs incluir tecnologias biotecnológicas em lista de controle de exportações; na semana passada, ministérios chineses incluíram certas tecnologias biofarmacêuticas nessa lista. Relatório da Jefferies citado pela Nikkei indicou que out-licensing, pesquisa e desenvolvimento terceirizados ou conjuntos e fabricação terceirizada foram, em geral, poupados.
Em oncologia, em agosto a Merck e a Moderna divulgaram dados iniciais positivos de ensaio em estágio avançado de terapia de mRNA contra melanoma, combinada ao Keytruda, da Merck. A expectativa em torno de vacinas personalizadas de mRNA contra o câncer aumentou, e as ações da Moderna quase triplicaram após o anúncio. Se a terapia for bem-sucedida, a Merck liderará a comercialização nos mercados internacionais, inclusive na Grande China, disse Bancel. Ele também destacou o câncer de pulmão — o mais comum na China e o que mais mata por câncer no país — e afirmou aguardar mais dados clínicos, avaliando potencial relevante sobretudo em estágios iniciais.
Uma tentativa anterior esbarrou em propriedade intelectual: a Moderna teria se recusado a entregar a “receita” de vacinas-chave de mRNA a autoridades chinesas como condição de venda. Em 2023, Bancel encontrou o secretário do Partido Comunista em Xangai, Chen Jining, prometeu investimentos e, no mês seguinte, a empresa registrou subsidiária na cidade. A China ainda não aprovou vacinas estrangeiras contra a covid-19. No início deste mês, a Abogen Biosciences, de Suzhou, fechou acordo com a Novartis por terapia autoimune de mRNA, com US$ 575 milhões iniciais e potencial de até US$ 7,8 bilhões.
Sobre nacionalismo e protecionismo, Bancel afirmou que a ciência “sempre avançou por meio da colaboração internacional” e que a Moderna permanece “pragmática”. Nos EUA, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos cancelou US$ 500 milhões em financiamento a vacinas de mRNA neste ano, sob o secretário Robert F. Kennedy Jr.; a decisão afeta 22 projetos, inclusive de Pfizer e Moderna, ligados a gripe aviária e outros vírus.
O que isso pode mudar
Se as conversas avançarem, a Moderna pode ganhar espaço em prevenção e tratamentos infecciosos e, no médio prazo, em oncologia personalizada num mercado em que o câncer de pulmão pesa — desde que dados clínicos e alianças comerciais se confirmem. Bancel compara a biotecnologia à inteligência artificial (IA), com EUA e China como “duas superpotências” capazes de gerar avanços; ainda assim, controles bilaterais, a ausência de aprovação chinesa a vacinas estrangeiras de covid-19 e o corte de verbas americanas podem frear o ritmo. “A ciência não tem fronteiras”, disse o CEO — hipótese que as próximas parcerias testarão na prática.
Fontes: Nikkei Asia
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