Chefe do Signal rejeita apocalipse de IA e aponta risco no uso irresponsável

Meredith Whittaker, da Signal Foundation, diz à BBC que não há base científica para temores de IA contra humanos e cita falhas em sistemas de inteligência dos EUA.
Foto: K (Pexels)
Meredith Whittaker, presidente da Signal Foundation, rejeita em entrevista ao programa Global Women, do Serviço Mundial da BBC, as narrativas de “apocalipse” em torno da inteligência artificial. Para a executiva, responsável pelo aplicativo de mensagens criptografadas Signal, não há evidências científicas de que a IA possa se voltar contra os seres humanos.
“O risco é muito real”, afirma Whittaker. “Mas não tem nada a ver com essas histórias fantasiosas contadas por garotos alarmistas.” A declaração, publicada nesta segunda-feira (19) pelo G1 a partir da reportagem da BBC, desloca o debate para falhas no emprego da tecnologia — inclusive em ambientes de alta responsabilidade.
Como exemplo, Whittaker cita um caso noticiado pela CNN: um chatbot usado pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos teria inventado informações sobre um navio chinês com material nuclear. Segundo a reportagem, o episódio levou os EUA a preparar uma resposta militar. “Quase entramos em guerra com a China”, disse à BBC, acrescentando que um sistema que quase provoca conflito com informações falsas “não pode ser considerado superinteligente”.
O que aconteceu
Whittaker, listada pela Time entre as vozes influentes em IA, entrou no Google em 2006 e ganhou notoriedade em 2018 ao ajudar a organizar paralisação de cerca de 20 mil funcionários contra o Projeto Maven — contrato com o Departamento de Defesa dos EUA para IA que identifica alvos em ataques com drones — e contra o que consideravam implementação apressada de tecnologias. O Google desistiu do contrato, assumido pela Palantir.
Ela relaciona o Maven ao ataque com mísseis dos EUA contra uma escola no Irã neste ano, dizendo que a operação usou informações desatualizadas que tratavam o prédio como alvo militar. A Palantir declarou que “não há evidências” de que seu software causou a tragédia e que não responde pelos dados nem por falhas de inteligência. As Forças Armadas dos EUA ainda não divulgaram a investigação sobre Minab; o secretário de Defesa Pete Hegseth afirmou que os militares “jamais atacariam alvos civis”.
Na entrevista, Whittaker mantém que o Signal sairá de mercados que exijam enfraquecer a criptografia — inclusive o Reino Unido, se necessário: “Sim! Meu Deus, eu tenho princípios.” Governos britânicos defendem mais acesso a conversas em apps como Signal e WhatsApp para proteger mulheres e crianças; na London Tech Week 2026, Keir Starmer exigiu que empresas bloqueiem nudez em dispositivos infantis. Whittaker classifica a ideia como controle sem precedentes das comunicações. O app está bloqueado na Rússia, na China e no Irã; estimativas apontam 40 milhões a 70 milhões de usuários, contra cerca de 3 bilhões no WhatsApp.
Impacto na prática
Se a tese de Whittaker ecoar entre reguladores e investidores, o debate sobre IA pode privilegiar auditoria de sistemas militares e de inteligência em vez de cenários de rebelião de máquinas. O caso citado da CNN sugere, em hipótese, que falhas algorítmicas poderiam elevar tensões entre potências antes de correções humanas.
A rigidez do Signal pode, em tese, reduzir sua presença onde o Estado exija leitura de mensagens — com efeitos distintos para usuárias em contextos de violência de gênero, descritos por organizações do Sul Global na reportagem, e para investigações de abuso infantil, tema da NSPCC à BBC. O Departamento britânico de Ciência, Inovação e Tecnologia informou que prepara mudanças legais, sem prazo na fonte.
Ao dizer que “o aplicativo precisa funcionar para todos, caso contrário não funciona para ninguém”, Whittaker defende privacidade mesmo quando o app abriga abusos, como no grupo de policiais no Canadá citado na entrevista. Em um ciclo de aceleração da IA, essa distinção entre risco existencial e risco operacional pode orientar discussões em empresas e governos — sem garantir, porém, desaceleração da corrida por modelos mais potentes.
Fontes: G1 (reportagem baseada no Global Women, Serviço Mundial da BBC)
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