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Corvos avaliam informação visual duas vezes mais rápido que mamíferos

Corvos avaliam informação visual duas vezes mais rápido que mamíferos

Experimento em Tübingen mostra corvos resolvendo a tarefa dos pontos aleatórios com lógica semelhante à dos primatas e cerca de metade do tempo, sem perder precisão.

Foto: Rafael Minguet Delgado (Pexels)

Corvos-comuns resolvem uma tarefa clássica de percepção visual com a mesma lógica matemática dos primatas e, em média, em cerca de metade do tempo. O achado foi descrito pela Ars Technica a partir de experimentos de Andreas Nieder e Philipp Schmidbauer, da Universidade de Tübingen, publicados na revista Science.

As aves não têm neocortex, a estrutura em camadas típica dos mamíferos. Mesmo assim, neurônios em uma região vista como contraparte funcional do córtex pré-frontal acumularam evidência sensorial até o limiar da escolha — e o fizeram bem mais depressa do que macacos e humanos na mesma prova.

O que aconteceu

Dois corvos criados à mão observaram, em um monitor sensível ao toque, uma nuvem de pontos brancos. Parte deles se deslocava de forma coerente para a esquerda, a direita, para cima ou para baixo. A missão era indicar a direção dominante bicando um alvo ao lado da tela; acertos valiam uma larva de farinha.

A prova é a mesma random-dot-motion task usada há décadas com macacos, em que neurônios do neocortex somam evidência até o animal decidir. Como o cérebro das aves se organiza em aglomerados densos, sem as folhas empilhadas do córtex — após mais de 360 milhões de anos de evolução separada —, não era óbvio se a lógica seria a mesma.

A coerência do movimento variou de 81 por cento, tarefa trivial, até 3 por cento, quase indistinguível de ruído. Ambos os corvos ficaram acima do acaso mesmo na condição mais difícil. A equipe registrou 248 neurônios no nidopallium caudolaterale, ou NCL, no topo da hierarquia de processamento das aves.

Do aparecimento dos pontos até o início do movimento da cabeça para bicar, a média foi de 235 milissegundos. Em versões bem pareadas da tarefa, macacos demoraram cerca de 410, 490 e 600 milissegundos em três estudos — na prática, cerca do dobro do tempo. Segundo Nieder, os corvos foram tão bons quanto macacos ou humanos, em ritmo autodeterminado, sem pressão para serem o mais rápidos possível.

Os tempos passaram de cerca de 220 milissegundos na condição mais fácil a 254 milissegundos na mais difícil. Ainda assim, houve aumento estatístico quando a coerência caía — o mesmo padrão dos mamíferos, só menos acentuado. Quase um quarto dos neurônios, 58 de 248, disparava conforme a direção escolhida. O sinal começou cerca de 70 milissegundos após os pontos e cerca de 170 milissegundos antes do movimento da cabeça: uma variável de decisão semelhante à do neocortex de macacos.

Nieder sugere uma cascata mais rápida — visão sensível a movimento, decisão e resposta motora — e dois fatores fisiológicos. O voo impõe cérebros compactos com neurônios pequenos e axônios curtos. A temperatura corporal das aves, cerca de 41 a 42 graus Celsius, acima dos cerca de 36,6 graus dos humanos, acelera canais iônicos e neurotransmissores. Há ressalvas: amostra de só dois animais; tempos válidos para essa tarefa; e incerteza se o resultado se estende além dos corvídeos, já famosos pela inteligência.

O que isso pode mudar

Se o padrão se confirmar em amostras maiores, o estudo pode reforçar a ideia de que a arquitetura em camadas do córtex mamífero não é a única rota evolutiva para decisões perceptivas rápidas e precisas. Em tese, isso amplia modelos biológicos para quem compara espécies e, em horizonte mais longo, para quem busca inspiração em sistemas que precisam decidir com pouco “hardware”.

Também pode, com cautela, reabrir a pergunta sobre o que torna esses resultados especiais: velocidade geral das aves ou um plus cognitivo dos corvos. Por ora, o dado mais seguro permanece o da Ars Technica e do paper na Science: na tarefa dos pontos aleatórios, esses corvos decidiram com lógica semelhante à dos primatas e cerca de duas vezes mais rápido, sem abrir mão da precisão.

Fontes: Ars Technica

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