Donald Trump propõe trocar nome da inteligência artificial por superinteligência

Donald Trump propõe trocar nome da inteligência artificial por superinteligência

Termo de 1955 volta ao centro do debate após o presidente dos EUA defender a troca por 'superinteligência'; especialistas ouvidos pelo g1 questionam a proposta.

Foto: Yaroslav Shuraev (Pexels)

O termo inteligência artificial (IA) surgiu em 1955 nos Estados Unidos e, sete décadas depois, o presidente Donald Trump quer substituí-lo por "superinteligência". A proposta, apresentada em discurso na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2026, passou a ser questionada por especialistas ouvidos pelo g1, que apontam motivações políticas e o risco de maior rejeição pública à tecnologia.

Segundo a reportagem publicada nesta quinta-feira (22) pelo g1, a expressão foi cunhada no trabalho de pesquisadores que buscavam máquinas capazes de raciocínio semelhante ao humano. Entre os nomes citados estão John McCarthy, Marvin Minsky, Claude Shannon e Nathaniel Rochester. Trump afirmou que o nome atual faz parecer que a tecnologia "seja falsa" e disse esperar que documentos dos Estados Unidos e, em tese, de todo o mundo, passem a usar "Superinteligência".

A cobertura, assinada por Darlan Helder a partir de São Paulo, reconstitui a origem histórica do termo e confronta a sugestão da Casa Branca com avaliações de pesquisadores brasileiros sobre o sentido científico e político da mudança.

O que aconteceu

A história do nome remonta a um contexto científico anterior a 1955. Entre as décadas de 1940 e 1950, Alan Turing já estudava a possibilidade de programar máquinas cujas respostas fossem difíceis de distinguir das humanas, segundo o professor e pesquisador de IA Allan Pscheidt. Em 1948, Norbert Wiener criou o termo cibernética para sistemas que ajustam o próprio funcionamento com base em informações sobre suas ações.

Foi nesse cenário que John McCarthy criou a expressão "inteligência artificial", em 1955, também para diferenciar o campo da cibernética, com foco no raciocínio e na autonomia das máquinas, conforme Pscheidt. Cleber Zanchettin, professor de Engenharia da Computação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explicou ao g1 que os pioneiros precisavam de uma nomenclatura para pesquisas que misturavam matemática, engenharia e estatística — algo que não se enquadrava no software tradicional da época.

Pesquisadores se reuniram no Dartmouth College, nos Estados Unidos, para discutir máquinas capazes de pensar. O Museu da História do Computador, na Califórnia, afirmou que eles concordaram em chamar a área de "inteligência artificial", mas não chegaram a consenso sobre como desenvolver a tecnologia. Havia abordagens distintas, de sistemas reativos ao ambiente a métodos baseados em estatísticas e probabilidades.

Sete décadas depois, Trump tem insistido na troca para "superinteligência" (SI). Antes da escolha, abriu enquetes na Truth Social com opções como "Inteligência Superior", "Inteligência Extrema" e "Inteligência Suprema" e, depois, "Superinteligência" e "Inteligência Superior". Em nenhuma das postagens, segundo o g1, explicou como a alteração seria feita ou se o mercado de tecnologia concordava. Também afirmou que trataria como "inimigo" quem usasse "inteligência artificial" em vez de "superinteligência".

Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a mudança não é simples. Anderson Soares, do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goiás (UFG), afirmou que o conceito de inteligência ainda não tem definição precisa e que a tentativa de Trump parece ter mais relação com interesses políticos do que com o desenvolvimento da tecnologia. Zanchettin apontou trecho do discurso na ONU em que Trump fala em "novo mundo da superinteligência" e completa com "vamos ver se isso vai dar certo", o que, para o professor, revela jogada de marketing sem efeito prático. Pscheidt associou a proposta a uma demonstração de poder e soberania dos Estados Unidos na corrida pela Inteligência Artificial Geral (AGI), ressaltando que, até o momento, não há comprovação científica de que já exista uma superinteligência.

Impacto na prática

Zanchettin alertou que introduzir termos como "superinteligência" ou "inteligência suprema" pode soar como ameaça e aumentar a rejeição do público, em um cenário em que, segundo ele, poucos países e populações teriam abraçado a tecnologia de fato. Uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que 52% dos brasileiros estão mais preocupados do que animados com o avanço da IA. Nos Estados Unidos, cerca de nove em cada dez americanos dizem estar mais preocupados do que animados com a possibilidade de a IA um dia superar a inteligência humana, segundo pesquisa da CNN divulgada em setembro.

Em hipótese, a disputa simbólica em torno do nome pode influenciar o tom do debate público e diplomático sobre liderança tecnológica nos Estados Unidos, país onde a Casa Branca tem colocado a tecnologia no centro do discurso. Isso não significa, porém, que o vocabulário científico ou comercial mundial vá mudar de imediato, conforme sugerem as próprias avaliações reunidas pelo g1.

Se a pressão política por um novo rótulo avançar, o debate pode se deslocar do mérito técnico da nomenclatura para a percepção de risco e de soberania, sugerem os especialistas citados na reportagem, sem garantia de adesão internacional ao termo proposto.

Fontes: g1 — Quem inventou o nome 'inteligência artificial' e por que Trump quer mudá-lo

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