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Editor da Nikkei diz que tamanho da aposta separa Vale do Silício da Ásia

Editor da Nikkei diz que tamanho da aposta separa Vale do Silício da Ásia

Akito Tanaka afirma que o capital migrou para IA após o ChatGPT e que o fosso com o Sudeste Asiático voltou a crescer, apesar de unicórnios e da Grab.

Foto: RDNE Stock project (Pexels)

De Tóquio, o editor Akito Tanaka, da Nikkei Asia, volta nesta sexta-feira (23) à pergunta que ouve há anos na região: por que a Ásia não replica o ecossistema do Vale do Silício. Na edição semanal Editor's Choice, ele amarra a resposta ao tamanho das apostas de risco e ao deslocamento do capital após a chegada do ChatGPT, em 2022.

Tanaka cobriu startups no Vale entre 2006 e 2010 e viu de perto a Tesla ainda montando poucos carros elétricos numa garagem e o Twitter com poucas dezenas de funcionários. Agora, ao olhar o Sudeste Asiático, afirma que o ecossistema segue de pé, mas que o fosso com a Califórnia voltou a se alargar na era da inteligência artificial (IA).

O que aconteceu

Segundo a newsletter, a seção ASEAN Money desta semana examina os desafios das startups do Sudeste Asiático. Por volta de 2021, quando Tanaka acompanhava o setor a partir de Singapura, a cena fervia: mais gente com smartphones e o avanço das superapps ajudaram a região a gerar unicórnios, empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

A liberação do ChatGPT em 2022, escreve ele, provocou uma virada dramática do capital de risco global em direção a startups de IA. Avaliações de companhias como OpenAI e Anthropic ultrapassaram rapidamente os US$ 100 bilhões, o que gerou o termo pouco elegante “hectocorn”. Nesse novo ciclo, a distância entre o Vale do Silício e o ecossistema do Sudeste Asiático voltou a crescer de forma considerável.

Tanaka não nega ativos locais. A Ásia tem instituições de ensino capazes de atrair jovens com potencial empreendedor, no espírito de Stanford e da Universidade da Califórnia em Berkeley no Vale. Também há casos de sucesso próprio, como a Grab, que construiu um modelo capaz de segurar rivais ocidentais de aplicativos. Ao mesmo tempo, a Nikkei registra que a Grab, uma das startups mais conhecidas da região, viu a avaliação cair nos últimos anos, ilustrada por entregadores estacionados em Bangcoc.

Para o editor, a maior diferença entre o Vale e o resto do mundo é o tamanho da aposta. Investidores californianos buscam tecnologias e negócios que possam “mudar o mundo”, porque uma tese capaz de remodelar indústrias, como a Tesla no mercado global de veículos elétricos, pode gerar retornos extraordinários. No vai e vem das apresentações, os fundadores aprendem a vender visões ousadas. A frase recorrente no Vale, segundo Tanaka, é “um problema grande é um bom problema”: sem escala ambiciosa, captar ali fica difícil.

Ainda assim, ele não vê barreira estrutural absoluta. Populações jovens, economias em expansão e problemas sociais urgentes, diz, são matéria-prima para empreendedores. Fundos do Vale também miram a Ásia: a Andreessen Horowitz, por exemplo, abriu um novo escritório em Tóquio. Na era da IA, empresas asiáticas ampliaram presença global sobretudo em semicondutores, e a China tem gerado companhias de IA com influência internacional.

O que isso pode mudar

Se a leitura de Tanaka se confirmar, o Sudeste Asiático pode continuar produzindo unicórnios de consumo e logística sem necessariamente disputar, no curto prazo, as megacapitalizações de IA que hoje concentram o risco global. O risco, nessa hipótese, é um ciclo em que o capital paciente migra para laboratórios e plataformas com tese planetária, enquanto negócios locais de escala regional enfrentam avaliações mais apertadas, no estilo do recuo recente da Grab.

Por outro lado, o próprio texto sugere uma janela. Se investidores do Vale seguirem abrindo portas na Ásia e se empreendedores da região elevarem o tamanho do problema que se propõem a resolver, pode surgir daqui uma startup de impacto global, não só um campeão doméstico. Tanaka chega a dizer que talvez seja apenas questão de tempo. O que está em jogo, portanto, não é só o próximo unicórnio regional, e sim se a Ásia passa a disputar as apostas que realmente redesenham mercados.

Fontes: Nikkei Asia

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