Estudo com 1.092 britânicos mostra que IA responsiva ainda parece menos consciente

Pesquisa publicada na revista Cognition, liderada pela Universidade Ludwig Maximilian de Munique, compara julgamentos sobre humanos e máquinas com o mesmo comportamento e indica que a escolha entre “consciência” e percepção do ambiente altera as respostas.
Foto: Kaique Rocha (Pexels)
Agir como uma pessoa pode não ser suficiente para ser visto como alguém que tem consciência. Em experimentos liderados pela Universidade Ludwig Maximilian de Munique, na Alemanha, participantes atribuíram menos consciência à inteligência artificial do que a humanos descritos com o mesmo comportamento.
Publicado na revista científica Cognition, o trabalho reuniu 1.092 participantes do Reino Unido em cinco experimentos. O resultado acrescenta uma distinção à discussão sobre consciência artificial: reconhecer que um sistema responde ao mundo não significa, necessariamente, acreditar que exista uma experiência subjetiva por trás daquela resposta.
A pesquisa investigou julgamentos humanos, sem determinar se máquinas são conscientes. Os dados foram divulgados em comunicado da universidade e relatados pela imprensa nesta semana.
O que aconteceu
Os voluntários leram situações em que personagens apresentavam diferentes graus de reação ao ambiente. As descrições envolviam, por exemplo, respostas a sons ou aos estados emocionais de outras pessoas. Os pesquisadores compararam avaliações de protagonistas humanos e artificiais.
Quanto maior a capacidade de resposta descrita, maiores tendiam a ser as notas. Ainda assim, segundo a apresentação dos resultados feita pela universidade, até a IA mais responsiva foi considerada menos consciente do que o humano menos responsivo.
A distância entre humanos e máquinas diminuiu quando os pesquisadores perguntaram sobre awareness, termo usado no estudo para tratar da percepção do ambiente, em vez de consciousness, ou consciência. Nesse caso, as avaliações acompanharam mais de perto o comportamento descrito, embora humanos ainda recebessem notas superiores nos níveis mais altos de resposta.
Para os autores, isso sugere que os participantes empregam critérios diferentes para conceitos próximos. Ao julgar a consciência, importa a natureza de quem age. Ao avaliar a percepção do ambiente, pesa mais aquilo que o personagem faz.
A filósofa Ophelia Deroy, uma das autoras, chama a atenção para os limites do vocabulário disponível. “Podemos estar usando termos mentais para nos referir à IA, mas isso talvez aconteça apenas porque nos faltam palavras melhores”, afirmou em comunicado da universidade.
Os experimentos avaliaram interpretações de situações escritas. Não mediram experiências internas de máquinas, nem demonstraram como os mesmos participantes reagiriam depois de uma relação prolongada com um chatbot. A amostra britânica também não representa, por si só, a opinião mundial.
Essa investigação é diferente das pesquisas que procuram indicadores científicos de consciência nos próprios sistemas. Também é distinta dos testes em que modelos produzem relatos sobre si, respostas que, isoladamente, não comprovam sentimentos ou experiência subjetiva. Para Bahador Bahrami, coautor do trabalho, a consequência está na maneira de apresentar a tecnologia ao público. “Isso torna importante nossa escolha de linguagem”, afirmou no comunicado.
Impacto na prática
À medida que assistentes de IA e chatbots ganham traços de personalidade e reagem a contexto em produtos de consumo e no trabalho, a forma como empresas e governos descrevem esses sistemas pode influenciar a confiança do público — em hipótese, sem que isso reflita qualquer prova de sentimento nas máquinas.
O estudo sugere que narrativas que enfatizam “consciência” ou experiência interior podem encontrar mais resistência do que mensagens centradas em capacidade de perceber e responder ao ambiente. Em mercados onde a regulação e a ética da IA são debatidas, essa distinção pode orientar discussões sobre transparência e expectativas realistas, ainda que os autores não tenham testado políticas públicas nem campanhas comerciais.
Para quem desenvolve ou adota a tecnologia, o trabalho reforça que comportamento semelhante ao humano não equivale automaticamente à percepção social de que há alguém “por trás” da interface. Isso pode afetar, em tese, desde o design de interfaces até litígios e normas que tratem sistemas como agentes com direitos ou deveres — temas que a pesquisa não aborda diretamente, mas que orbitam o debate sobre linguagem e julgamento popular.
Se a distinção entre consciência e percepção do ambiente se confirmar em outros contextos e países, o vocabulário usado para falar de IA pode pesar tanto quanto o desempenho técnico na forma como a sociedade aceita ou rejeita a ideia de máquinas “como gente” — sem que isso responda, por si só, à pergunta filosófica sobre se elas podem sentir.
Fontes: Exame
Leia mais em: mundodosnegocio.com.br