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Estudo da USP projeta retração severa se benefícios sociais estagnarem no interior

Estudo da USP projeta retração severa se benefícios sociais estagnarem no interior
Imagem ilustrativa

Levantamento do Made-USP indica que aposentadorias, Bolsa Família e BPC pesam até 40% da renda agregada em cidades fora das metrópoles e que a falta de reajustes reais poderia reduzir a renda local entre 6,8% e 10,8%.

Foto: K (Pexels)

A estagnação ou redução no valor de aposentadorias, do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) pode, em tese, provocar retração acentuada da atividade econômica em municípios do interior do Brasil. É o que sugere levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), divulgado nesta semana.

Segundo o estudo, esses benefícios têm peso relevante nas economias locais e chegam a representar quase metade do orçamento das famílias mais pobres. Para a co-diretora do Made-USP, a economista Luiza Nassif, o recurso recebido é usado quase integralmente em itens de primeira necessidade, o que faria o dinheiro circular de imediato no comércio, sustentar empregos e manter a arrecadação municipal.

Entre os 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil ficam fora das regiões metropolitanas. Nessas cidades, o peso das transferências públicas pode ser o dobro do observado nos grandes centros urbanos, de acordo com o levantamento.

O que aconteceu

O Made-USP analisou o papel das transferências sociais e previdenciárias na renda agregada e projetou efeitos econômicos da evolução desses benefícios no interior para os próximos três anos. A base comparativa usou o período de 2022 a 2025, quando houve crescimento real para BPC e aposentadorias, em contraste com o intervalo de 2019 a 2022, marcado por reajustes sem ganhos reais do salário mínimo e por congelamento total.

No Ceará, o trabalho cita que benefícios sociais e previdenciários respondem por 22% da renda agregada na capital e na região metropolitana, enquanto nas cidades do interior do estado o índice chega a 40%. Sem os reajustes reais do cenário mais recente, a renda agregada do interior nacional ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar associado à valorização dos benefícios, segundo as projeções.

Os cenários mais severos do modelo concentrariam-se no interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí, com queda de renda total entre 17% e 18% na ausência do ritmo atual de aumento dos benefícios. No Amazonas, Sergipe e Pernambuco, a perda projetada ficaria em torno de 15%. No Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, a retração variaria entre 10% e 13%. Em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o estudo aponta prejuízo de até 6,5%.

Além do efeito sobre renda e atividade, o levantamento destaca o papel dos benefícios no combate à pobreza. Nassif afirma que, para quem vive no limite, reajuste abaixo da inflação pode empurrar a família à pobreza; entre famílias com rendimento de até 1,5 salário mínimo per capita, os benefícios podem representar até 50% do rendimento.

Simulações do Made indicam que a ausência de ganhos reais entre 2022 e 2025 teria levado cerca de 2,7 milhões de pessoas à pobreza em municípios fora das regiões metropolitanas, sendo 2,4 milhões em extrema pobreza. Em números absolutos, as maiores altas ocorreriam na Bahia (até 336 mil pessoas), São Paulo (até 263 mil) e Minas Gerais (até 251 mil), seguidas por Maranhão, Pará e Ceará (mais de 200 mil cada).

Impacto na prática

Para famílias dependentes de transferências, a desaceleração ou o corte nominal dos benefícios pode, em hipótese, reduzir o poder de compra imediato em cidades onde o comércio de bens essenciais depende desse fluxo de caixa. O estudo sugere que a reação não se limitaria a quem recebe o auxílio: Nassif avalia que uma queda de renda poderia gerar efeito em cadeia e atingir também domicílios que não dependem diretamente do socorro público.

Do ponto de vista fiscal local, a menor circulação de recursos pode, em tese, pressionar arrecadação municipal e postos de trabalho ligados ao varejo de primeira necessidade nas áreas em que transferências respondem por fração maior da renda agregada. Os dados do Made reforçam disparidade regional: estados do Nordeste e do Norte aparecem entre os mais expostos nas simulações de queda de renda total.

Em escala nacional, o debate sobre política de reajuste de previdência, BPC e programas de transferência de renda ganha contorno macroeconômico com o levantamento, que associa manutenção de ganhos reais à sustentação de dignidade familiar e, simultaneamente, à dinâmica do comércio no interior. A economista resume que uma trava no crescimento dos benefícios poderia ampliar danos nas economias locais, segundo o impacto modelado pela queda de renda.

Se políticas futuras repetirem padrões de estagnação real semelhantes aos de 2019-2022, as projeções do Made-USP indicam risco de compressão mais forte da renda no interior do que nas metrópoles, com reflexos potenciais sobre pobreza, consumo e atividade nos milhares de municípios fora das regiões metropolitanas.

Fontes: Agência Brasil

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