Falha do Clarity Act nos EUA favorece Ásia e Oriente Médio, diz Apex

Peter Hughes, da Apex Group, diz à CoinDesk que o Senado dos EUA, ao não avançar o Clarity Act, empurra negócios de ativos digitais para Ásia, Oriente Médio e Bermudas.
Ilustração: Google DeepMind (Pexels)
Os Estados Unidos correm o risco de perder negócios com ativos digitais para a Ásia, o Oriente Médio e Bermudas depois que o Senado não avançou o Clarity Act, afirmou o presidente-executivo da Apex Group, Peter Hughes, em entrevista à CoinDesk. Segundo ele, atrasos e a falta de um marco regulatório claro empurram empresas do setor para jurisdições mais ágeis.
Hughes, fundador e CEO da Apex Group — firma financeira global que presta serviços a mais de US$ 3,5 trilhões em ativos em cerca de 50 jurisdições —, disse que o atraso em torno do Clarity Act fará agentes buscarem “outras soluções em outros lugares”. A Europa, na sua avaliação, não colhe o benefício do revés em Washington.
O que aconteceu
No mês passado, o Senado dos EUA não aprovou o Clarity Act, projeto que estabeleceria regras federais mais claras para ativos digitais e dividiria a supervisão entre a Securities and Exchange Commission (SEC, a comissão de valores mobiliários dos EUA) e a Commodity Futures Trading Commission (CFTC, a comissão de futuros de commodities). A proposta não alcançou os 60 votos necessários em setembro, após disputas sobre ética, recompensas de stablecoins — criptomoedas estáveis atreladas a reservas — e outras preocupações regulatórias.
Hughes alertou que a incerteza deixa em aberto como produtos financeiros baseados em blockchain — a tecnologia de registro distribuído usada em criptoativos — serão regulados na maior economia do mundo. Ele destacou oportunidades na Ásia, no Oriente Médio e em Bermudas, onde regimes estariam se movendo com mais rapidez “para produzir o produto do futuro” e ocupar o vazio.
Sobre a Europa, Hughes apontou o Markets in Crypto-Assets Regulation (MiCA, o regulamento europeu de mercados de criptoativos), em vigor desde 1º de julho, como lento para evoluir e restritivo. Assim, na leitura do executivo, o continente não se beneficia do atraso americano apesar de já ter regras próprias.
A Apex anunciou neste mês parceria com a droppRWA e a Tokeny para transformar ativos do mundo real (real-world assets, ou RWAs) em produtos de investimento regulados em blockchain, começando pela Arábia Saudita. Faisal Monai, CEO e fundador da droppRWA, afirmou que o país já permite a tokenização — conversão de ativos em tokens digitais — de imóveis e maior participação estrangeira no mercado imobiliário. Falta, segundo ele, infraestrutura que ligue cada token ao registro legal do ativo subjacente.
Hughes também sugeriu que bancos dos EUA influenciaram o debate em torno do Clarity Act e do GENIUS Act ao buscar proteger sua posição, com preocupações sobre recompensas de stablecoins competindo com depósitos tradicionais — embora o projeto no Senado tenha enfrentado objeções sobre ética política e salvaguardas.
O que isso pode mudar
Se a leitura de Hughes se confirmar, parte do fluxo de negócios de ativos digitais que poderia ficar nos EUA pode migrar para a Ásia e o Oriente Médio, enquanto Bermudas e regimes semelhantes disputam espaço com regras mais rápidas. A Arábia Saudita, nesse cenário, pode consolidar-se como polo de tokenização — caminho que Monai vê como possível via dominante para capital entrar no país sem presença local plena.
Além do embate regulatório, Hughes aponta fundos do mercado monetário tokenizados como um dos maiores motores de adoção institucional. Esses fundos investem em dívida de curto prazo tradicional, mas emitem tokens em blockchain que representam as cotas. Ele citou retornos de cerca de 5% em um fundo tokenizado frente a cerca de 3% em poupança bancária e o uso desses tokens como garantia (colateral) para empréstimos, já examinado por grandes bancos, segundo ele.
Stablecoins reguladas com rendimento também podem tornar-se ferramenta para tesourarias corporativas, desde que emissores cumpram exigências como transparência de reservas. O horizonte é incerto: “seja em um, três ou cinco anos, é difícil julgar”, disse Hughes. A tokenização poderia, com o tempo, alcançar contas de aposentadoria e o varejo — hipóteses que ainda dependem de consenso político e de infraestrutura em construção.
Fontes: CoinDesk
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