Grupos de ajuda devem prestar contas de US$ 700 mi do combate ao Ebola na RDC

Grupos de ajuda devem prestar contas de US$ 700 mi do combate ao Ebola na RDC

Órgãos como a ONU são cobrados a informar Kinshasa sobre o destino de mais de US$ 700 milhões doados contra o Ebola na República Democrática do Congo.

Foto: Safi Erneste (Pexels)

Organismos internacionais de ajuda, incluindo a Organização das Nações Unidas (ONU), estão sob pressão para informar o governo da República Democrática do Congo (RDC) sobre o destino de mais de US$ 700 milhões doados para combater o surto de Ebola que já matou mais de 4.600 pessoas no país.

Na semana passada, Jean Kaseya, chefe dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), afirmou que Kinshasa só havia sido informada sobre o uso de US$ 220 milhões dos US$ 962 milhões doados, segundo a Semafor.

O que aconteceu

Em comunicado duro, o Africa CDC disse que “deplora fortemente a falta de cooperação das organizações”, acusando-as de não respeitar a soberania congolesa e ameaçando retirar a autorização para atuar no país caso não cumpram a exigência.

Julien Harneis, coordenador sênior da ONU para o Ebola, disse à Semafor que o próprio Africa CDC criou, com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um sistema conjunto para acompanhar os desembolsos reportados pelos doadores. Segundo ele, o pedido do governo para que os destinatários informem o que receberam e gastaram é novo e ainda leva tempo para ser implementado; 43 organizações já teriam enviado as informações.

O porta-voz da OMS, Tarik Jasarevic, afirmou que a entidade apoia “processos claros e transparentes de rastreamento do financiamento”, inclusive a criação, pelo governo, de um mecanismo para prestar contas dos fundos entregues por parceiros — mensagem repetida por outros órgãos da ONU.

Ainda assim, as agências dizem precisar de mais recursos. Jasarevic informou que o orçamento da OMS para o Ebola, de US$ 115 milhões, está 80% financiado, enquanto Fleur Vernat, gerente de parcerias do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na RDC, disse que a resposta da agência enfrenta um déficit de 65% no financiamento.

Harneis afirmou à Semafor que a RDC registra menos casos e mortes diárias do que há um mês, mas o surto avança para novas províncias. A Nigéria registrou um caso de uma mulher que viajou de Uganda, e o Quênia já confirmou nove infecções. Os Estados Unidos são o maior doador da resposta.

Em agosto, o ministro da Saúde da RDC, Roger Kamba, já acusava organizações de ajuda de reter informações sobre gastos. “Vocês não podem dizer às pessoas que US$ 800 milhões foram dados ao Congo quando não conseguimos descobrir quanto vocês gastaram”, afirmou em coletiva. De-Joseph Kakisingi, que lidera uma rede de organizações congolesas de ajuda, falou à Semafor em “dois pesos e duas medidas”, mas reconheceu que o país carece de lei que defina o que as entidades devem reportar ao governo.

Este surto é o segundo mais mortal da história, atrás da epidemia de 2014-16, que matou mais de 11.300 pessoas, sobretudo na África Ocidental. Não há vacina conhecida para esta espécie do vírus, a Bundibugyo; a Ervebo, eficaz contra outra espécie, está em testes, e cerca de 9.000 profissionais da linha de frente já foram vacinados. Em agosto, trabalhadores de saúde na RDC fizeram greve alegando salários atrasados desde o início do surto, em meados de maio.

O que isso pode mudar

Se Kinshasa e o Africa CDC mantiverem a exigência de prestação de contas — e a ameaça de restringir a atuação de quem não cooperar —, a resposta humanitária pode passar a depender mais de relatórios detalhados de recebimentos e gastos, o que poderia aumentar a transparência, mas também atrasar operações em campo enquanto os sistemas de reporte se consolidam.

Doadores e agências, por sua vez, podem precisar reconciliar o rastreamento já feito com a OMS e o Africa CDC com o novo mecanismo do governo. Em um cenário de déficit de financiamento e expansão geográfica do vírus, a tensão entre soberania e velocidade da ajuda pode definir quem continua autorizado a operar — e com que grau de abertura sobre o uso dos recursos.

Fontes: Semafor

Fontes: Semafor

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