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Guy Standing classifica a eleição presidencial de 2026 como a do precariado no Brasil

Guy Standing classifica a eleição presidencial de 2026 como a do precariado no Brasil
Imagem ilustrativa

O economista britânico, autor de "O Precariado" (2011), vê na disputa deste ano o peso de uma classe marcada por insegurança, endividamento e ressentimento com a esquerda tradicional.

Foto: Matheus Bertelli (Pexels)

O economista britânico Guy Standing afirmou à Folha que a eleição presidencial brasileira de 2026 seria a primeira eleição do precariado no país, na medida em que a disputa estaria sendo decidida por uma nova estrutura de classes sociais. Standing popularizou o termo em 2011, com o livro O Precariado: A Nova Classe Perigosa, ao descrever um segmento em expansão com a flexibilização do trabalho, direitos frágeis e pouca perspectiva de futuro.

Na entrevista publicada neste domingo (18), o pesquisador ligou o fenômeno a tendências globais e disse que parte dessa classe é atraída pela direita, começando a expressar peso político também no Brasil. Endividamento familiar em níveis recordes e insegurança com o futuro, segundo ele, ajudam a explicar insatisfação com a esquerda tradicional.

Standing avaliou que o alerta feito no livro — de que inseguranças mal compreendidas poderiam alimentar populismos — se concretizou, citando a eleição de Donald Trump em 2016 como exemplo. Sobre o Brasil, comparou 2018, dominada na visão dele por indignação com crime e corrupção, com o ciclo atual, em que Lula enfrentaria dificuldades apesar de um desempenho econômico que ele descreveu como bastante bom.

O que aconteceu

Há 15 anos, Standing identificou o precariado como nova classe de massa ligada à revolução neoliberal dos anos 1980, à desigualdade e à defesa da flexibilidade do mercado de trabalho. Na conversa com a Folha, ele manteve o conceito em três dimensões: relações de trabalho instáveis, com escolaridade média acima do exigido pelos empregos; dependência quase total de salários em dinheiro, sem benefícios garantidos por direitos; e sensação de perda de segurança estatal, com tarefas não remuneradas impostas pelo Estado e exploração via endividamento crônico.

O economista divide o precariado internamente entre atavistas, menos escolarizados e receptivos a populismos que prometem retorno a uma suposta grandeza passada, e progressistas, mais escolarizados, frustrados com promessas de futuro seguro e em busca de uma política que não encontram no espectro atual. Uberização e plataformas digitais entram na história, mas não definem sozinhas o grupo, na avaliação dele.

Standing argumentou que o precariado existe no mundo inteiro — o livro foi traduzido para 25 idiomas — e que no Brasil o sucessor do antigo proletariado perde direitos sociais conquistados, sem necessariamente querer o modelo anterior. Citou a Grã-Bretanha em maio de 2026 como primeira eleição desse tipo no país, com atavistas na extrema direita e progressistas votando contra o Partido Trabalhista. No Brasil, com voto obrigatório, disse que a parcela progressista do precariado estaria ficando em casa.

Sobre política nacional, criticou a esquerda por não alcançar o precariado, elogiou o Bolsa Família de 2003 como avanço, mas afirmou que faltou avanço rumo a segurança básica universal, recuperação de bens comuns e reforma educacional. Expressou receio de que nova guinada à extrema direita prejudique jovens do precariado e de que outro mandato bolsonarista seguisse o modelo trumpista, como prometido publicamente. Mencionou Eduardo Suplicy e a geração de Lula como quem abriu caminho após ditaduras, mas disse que a voz do precariado de hoje precisaria surgir dos progressistas dentro da própria classe.

Impacto na prática

Se a leitura de Standing se confirmar nas urnas e na formação de governo, o debate econômico pode ganhar mais espaço para insegurança no emprego, dívidas das famílias e percepção de que políticas de bem-estar não chegam a quem depende de trabalho assalariado instável. Em tese, isso pode influenciar agendas sobre crédito, proteção social e reforma do Estado, não apenas retórica de campanha.

Para trabalhadores endividados, a entrevista sugere que acidentes, doenças ou erros financeiros reforçam medo de queda na miséria e perda de moradia — condição que Standing associa a menor tolerância e menor empatia, ecoando argumentos do livro A Política do Tempo. No plano internacional, a comparação com eleições nos Estados Unidos, no Reino Unido e na própria Grã-Bretanha em 2026 indica que movimentos semelhantes podem, em hipótese, pressionar governos a responder ao capitalismo rentista e à financeirização que o autor descreve como concentradores de renda em proprietários de bens.

A distinção que ele faz entre informalidade por conta própria e precariado assalariado pode, caso entre no discurso público, alterar como pesquisadores e formuladores enquadram o mercado de trabalho brasileiro, historicamente marcado por informalidade. Nada disso, porém, está dado como resultado eleitoral ou político: são interpretações de um economista sobre tensões de classe em um ano de segundo turno presidencial.

Standing encerra a entrevista com tom de alerta: a luta política do precariado, na visão dele, ainda está em formação, e a incapacidade da esquerda tradicional de traduzir suas inseguranças em nova política pode, em cenário pessimista, abrir espaço para novos ciclos de extrema direita — no Brasil e em outros países onde o conceito ganhou repercussão desde 2011.

Fontes: Folha de S.Paulo — Brasil vive primeira eleição do 'precariado', diz economista britânico (18/10/2026)

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