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Imprensa internacional vê reeleição de Lula como freio à direita e revés para Trump

Imprensa internacional vê reeleição de Lula como freio à direita e revés para Trump

Veículos dos EUA, Reino Unido, Espanha, França e Argentina tratam a virada de Lula como interrupção da onda conservadora na América Latina; ETF Brasil cai 19% no after-hours.

Ilustração: Rô Acunha (Pexels)

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) neste domingo (25) foi lida pela imprensa estrangeira como um freio à onda conservadora na América Latina e um revés para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo o InfoMoney, a relação com Washington ocupou o centro das manchetes internacionais.

Derrotado no primeiro turno, Lula assegurou o quarto mandato com uma virada que veículos dos EUA, do Reino Unido, da Espanha, da França e da Argentina descreveram como histórica e sem precedentes nas eleições presidenciais desde a redemocratização. A margem estreita e o contraste com a sequência de vitórias da direita na região marcaram a cobertura.

No mercado, o sinal mais imediato veio fora do pregão brasileiro. Em linha com o G1, o ETF EWZ — fundo negociado nos EUA que acompanha ações brasileiras — caía 19% no after-hours (negócios após o fechamento regular) às 21h37 deste domingo, após a confirmação da reeleição.

O que aconteceu

A Associated Press apresentou Lula como um “crítico de Trump”, enquanto a CNN destacou que o petista derrotou um “aliado de Trump” e manteve o Brasil à esquerda em uma região que vem se deslocando para a direita, conforme a síntese do InfoMoney. O Washington Post afirmou que o resultado interrompe essa guinada ao impedir que a maior democracia latino-americana se juntasse a ela. Para o Financial Times, a vitória é um golpe na ambição de Trump de ampliar a influência dos EUA na região.

BBC e Financial Times trataram a votação como disputa voto a voto. O Wall Street Journal falou em surpresa que prolonga uma das carreiras políticas mais longas da América Latina e, para os conservadores, em “amarga decepção”. O mesmo jornal, citado pelo InfoMoney, observou que, quando Lula tomar posse em 1º de janeiro, a direita brasileira terá conquistado mais espaço: no primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou à frente com 47% dos votos, ante 45,2% de Lula, e a direita teve desempenho ainda melhor em outras disputas, em um Legislativo fragmentado com mais de uma dúzia de partidos.

O espanhol El País falou em “virada épica”, freio à extrema direita no Brasil e “balão de oxigênio” à esquerda no mundo. O New York Times leu o resultado como recado ao movimento conservador que vem conquistando presidências na América Latina, celebrado por Trump, e registrou a interrupção de sete vitórias seguidas da direita na região nos últimos 18 meses. O jornal lembrou o confronto aberto de Lula com a Casa Branca, que teria usado tarifas e sanções na tentativa de evitar a prisão de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos por tentativa de golpe após a eleição de 2022.

O francês Le Monde contrasteou o Brasil com Argentina, Chile e Colômbia, governados por presidentes apoiados por Trump: o país não virou à direita e segue como um dos raros redutos progressistas da região. Segundo o jornal, Lula reverteu a desvantagem do primeiro turno em parte ao atrair eleitores que haviam se abstido — a abstenção caiu de 21,08% para 19,21% entre os turnos. O argentino Clarín chamou a vitória de feito extraordinário e disse que ela frustra o plano de Trump e do aliado Marco Rubio de controlar a região, onde as últimas sete eleições teriam favorecido líderes alinhados à Casa Branca, entre eles Javier Milei, que atacou Lula e deixou a relação bilateral sob tensão.

No front financeiro, o G1 registrou que o mercado brasileiro não opera aos domingos. Os últimos dados do pregão são de sexta-feira (23): o Ibovespa — principal índice da B3 — subiu 0,47%, aos 205.083 pontos; o dólar comercial recuou 0,90%, a R$ 4,9930; e o próprio EWZ havia fechado em alta de 1,77% naquela sessão.

Impacto na prática

Para quem acompanha notícias e ativos ligados ao Brasil, a reação internacional concentra o debate em diplomacia e narrativa política: se a reeleição pode ser lida como interrupção de uma sequência regional de vitórias da direita e como contratempo para a estratégia de influência atribuída a Trump, segundo os veículos citados. Em tese, essa leitura pode afetar a percepção de risco e de alinhamento geopolítico associada ao país — sem garantir, por si só, mudança de política externa ou de agenda interna.

No bolso e nas carteiras, o recuo de cerca de 19% do EWZ no after-hours sugere, em hipótese, que parte dos investidores internacionais reprecificou ativos brasileiros na noite do resultado. Como a B3 só volta a operar em dia útil, o movimento nos EUA pode antecipar volatilidade quando o pregão doméstico reabrir — hipótese, não previsão. Na sexta anterior ao segundo turno, dólar e Ibovespa ainda mostravam fechamento relativamente estável, o que reforça o contraste com o after-hours de domingo.

Para um país como a Argentina, citada pelo Clarín no eixo comercial e político com o Brasil, a vitória de Lula pode, em tese, recolocar em xeque o tom das relações bilaterais após ataques de Milei na campanha — cenário que as próprias reportagens estrangeiras deixam em aberto, sem prazo nem desfecho definidos.

Se a cobertura estrangeira e o tombo do ETF no after-hours forem tomados juntos, o domingo eleitoral aparece menos como epílogo e mais como ponto de partida: a imprensa internacional descreve um freio simbólico à direita continental, enquanto o preço das ações brasileiras no exterior já registra, em hipótese, o primeiro teste de humor dos mercados diante do quarto mandato de Lula.

Fontes: InfoMoney · G1 Economia

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