Isolamento e bombas de calor poderiam cortar mais custos no Reino Unido que novos poços

Pesquisa do think tank E3G compara o plano de £15 bilhões para casas aquecidas com o campo de Rosebank e coloca em xeque cortes orçamentários e novas licenças no Mar do Norte.
Foto: Matheus Bertelli (Pexels)
Isolar moradias e investir em bombas de calor poderia reduzir mais o custo de vida, gerar empregos e impulsionar a economia do Reino Unido do que a perfuração de novos poços de petróleo, segundo pesquisa divulgada neste domingo (18).
O estudo, do think tank europeu de política climática E3G, coloca em contraste o plano governamental de £15 bilhões para “casas aquecidas” (warm homes) — hoje sob risco de cortes enquanto ministros buscam economia no orçamento — com o desenvolvimento do campo de Rosebank, a oeste das ilhas Shetland. A análise sugere ganhos econômicos e de emprego bem maiores no lado da eficiência energética residencial do que na expansão de hidrocarbonetos no Mar do Norte.
O debate ganha urgência política à medida que o governo trabalhista avalia licenças para Rosebank e para o campo de gás Jackdaw. Sindicatos, parlamentares e cientistas já se posicionaram contra Rosebank, enquanto a indústria e a joint venture Adura (Equinor e Shell) defendem os números do setor.
O que aconteceu
De acordo com o E3G, o plano de casas aquecidas poderia retirar cerca de £1 bilhão por ano das contas de energia das famílias em todo o país, com foco em rendas mais baixas. O mesmo pacote, na leitura do instituto, injetaria cerca de £1,6 bilhão por ano na economia e criaria cerca de 50 mil novos postos de trabalho, distribuídos por milhares de pequenos negócios.
Para Rosebank, a análise aponta cerca de 1,1 mil empregos diretos e indiretos, concentrados no Mar do Norte e em duas empresas — uma delas a norueguesa Equinor, investidora estrangeira. A Equinor havia estimado, em outro momento, até 3,5 mil empregos no pico somando Jackdaw e Rosebank.
A secretária de Energia, Miatta Fahnbulleh, disse na quarta-feira que a decisão sobre Jackdaw estava “iminente” e que o veredito sobre Rosebank levaria um pouco mais de tempo. O Partido Trabalhista prometeu no manifesto de 2024 interromper novas licenças de óleo e gás, mas Jackdaw e Rosebank poderiam ser exceções por já estarem no sistema de licenciamento.
Especialistas citados pela reportagem reiteram que novo óleo e gás no Mar do Norte não necessariamente baratearia combustíveis nem aliviaria restrições de oferta ligadas, por exemplo, à guerra no Irã, porque petróleo e gás são negociados em mercados internacionais. Pesquisas do WWF e do grupo Uplift indicam receitas tributárias limitadas diante de concessões aos operadores: lucros totais de Rosebank para Equinor, Shell e Ithaca Energy poderiam chegar a £1,5 bilhão em 25 anos, enquanto o governo britânico enfrentaria perda potencial de £258 milhões com incentivos fiscais.
Receitas upstream do Mar do Norte ficaram em cerca de £4 bilhões em 2025-26, mas alívios e apoios somaram cerca de £3,26 bilhões. Com o declínio da bacia, projeções citadas apontam queda das receitas para cerca de £100 milhões até 2030; a desmontagem de plataformas poderia exigir dos contribuintes cerca de £12 bilhões.
O plano residencial prevê isolar até 5 milhões de imóveis e, segundo o E3G, atrair mais £15 bilhões em investimento privado espalhado pelo país. O instituto estima que a execução integral elevaria o PIB em 0,08%, enquanto modelagem de IA sugere que Rosebank acrescentaria em média 0,025% ao longo da vida do projeto, assumindo preço do barril voltando a US$ 70 após altas recentes — impacto que poderia ser neutralizado se o contribuinte arcasse com a descomissionamento.
Dez grandes sindicatos escreveram ao governo na quinta-feira contra a licença de Rosebank; dezenas de deputados trabalhistas e 600 cientistas também se opuseram em momentos anteriores. Dhara Vyas, da Energy UK, pediu que o governo mantenha ambições de eletrificação e alertou que enfraquecer o plano de casas aquecidas envia sinais contraditórios ao mercado. O Departamento de Segurança Energética e Net Zero recusou comentar os achados do E3G. A Adura afirmou que Rosebank e outros projetos sustentariam £35,3 bilhões em valor econômico ao Reino Unido entre 2026 e 2035, com £8,7 bilhões de investimento privado em Rosebank e £4,1 bilhões em impostos adicionais na década — números que a reportagem associa a operações mais amplas e que não consideram plenamente os alívios fiscais estimados em mais de £2,4 bilhões.
Impacto na prática
Para famílias de baixa renda no Reino Unido, a conclusão do E3G sugere que manter ou ampliar o plano de isolamento e bombas de calor pode, em tese, aliviar contas de energia de forma mais direta do que novos poços no Atlântico Norte. Moradores em regiões fora do eixo petrolífero poderiam sentir mais efeito em empregos locais e em gastos de aquecimento do que com vagas concentradas no Mar do Norte e em poucas empresas.
No plano fiscal britânico, cortes ao warm homes plan, se confirmados, podem competir com incentivos a Rosebank e Jackdaw em um momento em que receitas do Mar do Norte já caem e custos de descomissionamento pesam no orçamento. A disputa pode influenciar sinais para construtoras, instaladores e fabricantes de equipamentos de eficiência energética — setores que, segundo Energy UK, demoram a retomar escala após mudanças de política.
Em escala internacional, o caso reforça o argumento de que expansão doméstica de fossil fuels não garante preços mais baixos no mercado interno, o que pode repercutir em outros países que debatem licenças offshore em meio a choques globais de oferta. Para o governo trabalhista, a escolha entre exceções de licenciamento e promessas climáticas de 2024 pode definir o tom da política energética nos próximos anos.
Se ministros optarem por cortar o plano residencial enquanto avançam licenças no Mar do Norte, a reação pública diante do inverno — como alertou o pesquisador sênior do E3G James Huw Dyson — pode tornar o custo de vida e a distribuição de empregos pelo território um foco ainda mais sensível da agenda econômica britânica.
Fontes: The Guardian — Heat pumps and insulation would cut UK living costs more than new oilfields, study suggests (18/10/2026).
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