Israel amplia pegada no Chipre com turismo, imóveis e cartazes eleitorais

Quase 600 mil viagens israelenses no ano passado e cartaz de Eisenkot perto de Larnaca ilustram a influência crescente no aliado mediterrâneo.
Ilustração: Christina Morillo (Pexels)
Neste verão, um outdoor em hebraico à beira da estrada perto do aeroporto de Larnaca saudava turistas com o apelo “Israelenses, aproveitem! Agora voltem e vençam!”. Não era anúncio de hotel: era cartaz de campanha para a eleição israelense de 27 de outubro, com o ex-chefe do Exército e líder do partido de oposição Yashar, Gadi Eisenkot — segundo relatos, o primeiro político estrangeiro a fazer campanha em outdoors no Chipre.
O gesto resume o que chipriotas descrevem como dinheiro e presença israelenses avançando rápido, enquanto Nicósia trata Israel como aliado estratégico. Turismo em alta, compra de imóveis e até articulação política no Parlamento local entram no mesmo quadro, segundo a reportagem da Al Jazeera.
O que aconteceu
A apresentadora de TV e ativista pró-Palestina Melanie Steliou disse à Al Jazeera que o cartaz sinaliza o número crescente de israelenses que vivem ou visitam a ilha. Israel fica a cerca de 40 minutos de voo; quem pode voltar no dia da votação “aparece, vota e retorna no mesmo dia”, afirmou. O Estado israelense não permite que a maioria dos cidadãos no exterior vote fora do país, o que leva campanhas a cortejar quem consegue voar de volta no pleito. Para Steliou, políticos israelenses tratam o Chipre como “só mais um distrito de Israel”.
A influência política também chegou ao Parlamento chipriota. Em 20 de outubro, seis deputados formaram uma bancada pró-Israel, lançada pelo grupo de advocacy Israel Allies Foundation, conforme a Al Jazeera, citando o Jerusalem Post.
A ilha já absorveu ondas de compradores estrangeiros. Limassol chegou a ser apelidada de “Limassolgrad” pela comunidade russa. O historiador e analista chipriota Theodosis Pipis, do think tank KEDISA, lembrou que, com o investimento russo no início dos anos 2010, “apareceram prédios grandes” com a chegada de empresas, mas “nunca se viu de fato um influxo enorme de compra de casas, construção de escolas, criação de comunidades”. Ondas anteriores de capital externo, disse ele, não moldaram o clima político nem trouxeram campanhas eleitorais estrangeiras. O investimento israelense, em contraste, estaria criando “um senso de comunidade para o futuro”.
Os números de fluxo reforçam a escala. Israelenses fizeram quase 600 mil viagens ao Chipre no ano passado — mais que o dobro do patamar de 2022 —, segundo o Serviço Estatístico do Chipre (CYSTAT). Em agosto, quase um em cada quatro turistas que chegavam à ilha era israelense, alta de 28,4% em relação a 2025, também segundo o CYSTAT, com parte desse público comprando imóveis. Chipriotas afirmam que o capital israelense se move rápido e os exclui, enquanto o governo abraça Israel como aliado-chave.
O que isso pode mudar
Se a tendência de visitas e compras se mantiver, o mercado imobiliário e o tecido urbano de cidades como Limassol podem ficar ainda mais tensionados entre demanda externa e acesso local — um cenário que Pipis diferencia da experiência russa anterior, mais ligada a edifícios corporativos do que a comunidades residenciais e instituições.
No plano político, a combinação de cartazes de campanha israelenses em solo chipriota e uma bancada pró-Israel no Parlamento sugere que a aliança bilateral pode ganhar camada doméstica mais visível. Isso, em tese, ampliaria o debate interno sobre soberania simbólica e influência estrangeira, sobretudo às vésperas do voto de 27 de outubro em Israel, quando milhares de visitantes ou residentes temporários podem cruzar o Mediterrâneo para votar e voltar no mesmo dia.
O risco, segundo o tom das vozes locais reunidas pela Al Jazeera, é que turismo de massa e capital imobiliário acelerem uma percepção de exclusão econômica sem que haja, ainda, um contrapeso regulatório claro. O quadro permanece aberto: a pegada israelense já é mensurável em fluxos e gestos públicos; o que ainda não se sabe é até onde Nicósia e a sociedade chipriota vão acomodar — ou contestar — essa integração acelerada.
Fontes: Al Jazeera
Leia mais em: www.mundodosnegocio.com.br