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Jovens americanos abrem mão do carro e tratam custo alto como freio no bolso

Jovens americanos abrem mão do carro e tratam custo alto como freio no bolso

MarketWatch mostra jovens nos EUA que evitam carro próprio diante de preços altos e falta de modelos abaixo de US$ 30 mil.

Ilustração: William Fortunato (Pexels)

Com o preço médio dos carros disparado nos Estados Unidos, parte da juventude deixa de comprar ou manter um veículo próprio e trata a decisão como alívio de caixa, segundo reportagem do MarketWatch. Abrir mão do carro, para alguns, significa mais controle sobre o que sobra no fim do mês.

A narrativa acompanha quem já reorganizou rotina e orçamento em torno de transporte compartilhado, aluguel pontual ou deslocamento a pé e de ônibus. Não é regra nacional: a matéria deixa claro que a “liberdade financeira” sem carro só se sustenta onde há alternativa viável de mobilidade.

O que aconteceu

O MarketWatch descreve um mercado de veículos novos que se afastou do comprador jovem e de renda mais baixa. Sam Fiorani, vice-presidente de previsão global de veículos da AutoForecast Solutions, afirma à publicação que esses compradores “largamente deixaram” o mercado de novos. Hoje, diz ele, faltam opções abaixo de US$ 30 mil.

Na última década, o sumiço de modelos de entrada como Ford Focus, Chevrolet Cruze e Nissan Versa teria eliminado produtos que costumavam atrair o primeiro comprador. Historicamente, quando o mercado americano encarecia demais, um concorrente estrangeiro ajudava a reequilibrar preços — Volkswagen nos anos 1950, Toyota e Honda nas décadas seguintes, Hyundai e Kia depois. Agora, regulações protecionistas e tarifas impedem a entrada de carros chineses mais baratos, cortando uma fonte potencial de veículos de entrada, segundo Fiorani.

Tom Libby, diretor de soluções de fidelidade e análise setorial da Mobility Global, diz ao MarketWatch que as montadoras têm dificuldade de “ganhar dinheiro” em veículos abaixo de US$ 30 mil, embora haja demanda. O Ford Maverick, apresentado em 2021 por cerca de US$ 20 mil, “foi muito bem”, mas hoje custa cerca de US$ 30 mil. A Slate Auto, startup de veículo elétrico apoiada por Jeff Bezos, já aceita pré-encomendas de picapes com janelas de enrolar a partir de US$ 25 mil.

No plano pessoal, a reportagem cita Nick Renteria, de 24 anos. Ao se mudar de Boston para Los Angeles para estudar, alugou um carro por cerca de US$ 350 por mês — os pais cobriam o aluguel, ele pagava a gasolina — e acabou detestando o trânsito, o estacionamento e a sensação de ficar desconectado da cidade. Ao concluir o curso, decidiu que não queria carro nenhum.

Dominic Berardi, estudante de 21 anos em Orlando, na Flórida, ainda tem veículo, mas mudou para o centro e pegou emprego de garçom perto de casa “porque já planejava reestruturar a vida em torno do transporte público que existe aqui, se for possível”. Para ele, independência deixou de ser ter um carro à porta: passou a ser a liberdade de não depender de um.

O que isso pode mudar

Se a escassez de carros novos acessíveis se mantiver, a tendência descrita pelo MarketWatch pode reforçar, entre jovens urbanos, um padrão em que propriedade deixa de ser o rito de passagem financeiro e vira custo a evitar. Hipótese que a própria matéria condiciona: sem rede de transporte ou trabalho próximo, o alívio orçamentário some e o carro volta a ser obrigação, não escolha.

Para a indústria, preços de entrada mais baixos — como os da Slate ou um Maverick mais barato — poderiam reconquistar parte da demanda, mas Libby e o perfil de Berardi sugerem que parte da geração já testa vida sem dono de veículo. O risco, neste cenário, é um mercado dual: quem pode pagar o novo premium segue na pista; quem não pode, ou quem prefere folga no orçamento, acelera o abandono da propriedade — e redefine o que conta como liberdade financeira aos 20 e poucos anos.

Fontes: WSJ Markets

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