Lee Chang Dong reflete sobre ética da câmera em Possible Love

Sétimo filme do diretor de Burning parte de demissões em massa na Coreia em 2009 e discute desejo, trabalho e o ato de filmar o outro.
Ilustração: 대정 김 (Pexels)
O cineasta sul-coreano Lee Chang Dong, conhecido por Burning, estreia seu sétimo longa, Possible Love, com um olhar menos sobre o calor da greve e mais sobre o que sobra depois dela. Em entrevista publicada nesta sexta-feira (24) pela The Verge, a jornalista May Jeong descreve um filme que mistura luta trabalhista, conexão humana e a natureza de capturar outras pessoas em imagem.
Inspirado em fatos reais de 2009, quando um conglomerado coreano demitiu um terço do quadro — 2.600 funcionários — e muitos se suicidaram depois, a trama entra em um tempo turvo, difícil de resumir em slogan. O eixo, segundo o texto, não é só o drama social: é também a ética da câmera e o desejo que move os personagens.
O que aconteceu
Jeong situa Possible Love na linha de trabalhos de Lee que tratam de classe, trabalho, religião ou da “modernidade comprimida”, aflição descrita como tipicamente coreana, sem tom didático. Em vez de reconstituir o auge do conflito laboral, o filme acompanha personagens no pós-choque, quando o sentido dos fatos já não é óbvio.
A abertura traz a epígrafe “Não cobiçarás”. O que vem a seguir, segundo a reportagem, é um elenco de cobiças: emprego alheio, roupas de grife, cônjuges e posição social. Mi-ok, interpretada por Jeon Do-Yeon, é a esposa que carrega o peso do desemprego do marido Ho-seok, vivido por Sul Kyung-gu. No funeral de um colega que se suicidou, o casal encontra outro casal — ponto de partida narrativo destacado pela The Verge para cruzar luto, status e desejo.
O recorte jornalístico enfatiza que Lee não reduz o filme a panfleto. A demissão em massa e os suicídios funcionam como pano de fundo histórico; o primeiro plano fica com relações íntimas e com a pergunta sobre o que significa filmar o sofrimento e a cobiça do outro. O título da coluna — Lee Chang Dong pondera a ética da câmera — resume esse deslocamento: do fato econômico ao gesto de olhar.
A matéria da The Verge, vinculada ao Festival de Cinema de Nova York, apresenta o filme como continuação de uma filmografia atenta a desigualdades sem simplificá-las. Números e nomes citados — 2009, um terço do quadro, 2.600 demitidos, Jeon Do-Yeon, Sul Kyung-gu — vêm desse relato e amarram a ficção a um trauma laboral concreto, sem transformar a sala de cinema em tribunal.
O que isso pode mudar
Se o debate público em torno de Possible Love acompanhar o ângulo da entrevista, o filme pode deslocar conversas sobre cinema social: em vez de priorizar apenas a cena da greve, a atenção iria para o resíduo psíquico e moral das demissões em massa. Isso, em tese, reforçaria o interesse por narrativas que tratam do após — quando o emprego já sumiu e restam rituais de luto, comparação e cobiça.
Há também uma hipótese ética. Ao colocar a câmera no centro da reflexão, Lee pode estimular cineastas e espectadores a questionar até onde o registro do sofrimento alheio é testemunho e até onde vira consumo. Em mercados onde dramas de classe competem com espetáculo, um filme que recusa o didatismo pode, se encontrar público, ampliar espaço para obras que misturam intimidade e estrutura econômica sem slogan.
Por fim, o enquadramento da The Verge sugere que a “modernidade comprimida” coreana continua a alimentar histórias exportáveis. Se Possible Love circular além do circuito de festival, pode fortalecer a percepção de que o cinema sul-coreano segue relevante não só por tensão e estilo, mas por insistir em perguntas sobre trabalho, desejo e o preço de olhar — perguntas que, com modalizador, tendem a ecoar onde demissões em larga escala ainda moldam a vida privada.
Fontes: The Verge
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