Lucros da Condé Nast no Reino Unido caem mais de um terço após família descartar venda

Contas recém-arquivadas mostram queda de 36% no lucro antes de impostos e receita britânica 7% menor, em meio a custos de reestruturação e investimento em soluções para clientes.
Foto: Caroline Cagnin (Pexels)
Os lucros da operação britânica da Condé Nast recuaram mais de um terço no último exercício, segundo números divulgados pouco depois de a família bilionária proprietária do grupo — dono de títulos como Vogue e GQ — descartar a venda da editora. O resultado contrasta com 2024, quando a companhia se beneficiou da venda da sede londrina Vogue House.
As contas recém-registradas na Companies House mostram lucro antes de impostos, excluindo itens excepcionais, em queda de 36%, de 28 milhões de libras esterlinas para pouco menos de 18 milhões no ano passado. A receita gerada no Reino Unido caiu 7%, de 75,9 milhões para 70,6 milhões de libras.
Um aumento de 18% na receita internacional, para 29,7 milhões de libras, ajudou a manter a receita total da empresa praticamente estável, em cerca de 100 milhões. A editora afirmou que segue lucrativa no país e atribuiu parte da variação do lucro a um período de investimento planejado em soluções personalizadas para clientes.
O que aconteceu
A Condé Nast publica marcas como Vanity Fair, House & Garden e Tatler. Os custos de reestruturação mais que dobraram em um ano, de 1,9 milhão para 4,3 milhões de libras; a empresa disse que a cobrança recente se deve principalmente a indenizações por demissão. Mesmo assim, o quadro de funcionários permaneceu quase igual, de 466 para 461 pessoas entre 2024 e o último ano.
Em nota, a editora afirmou que não houve grandes reestruturações no negócio britânico em 2025, apenas casos isolados de demissão, com contratações continuando em outras áreas. Alterações nas projeções do regime de pensão e a inflação salarial também pesaram no lucro do período, segundo o porta-voz.
Na semana passada, Steven Newhouse, presidente da Advance — holding da família Newhouse que controla a Condé Nast — descartou a venda do gigante editorial. Havia especulação de que Jeff Bezos, dono do Washington Post, pudesse comprar o negócio. Newhouse comentou após a saída abrupta do CEO Roger Lynch, contratado em 2019 para reverter o rumo da empresa e que passou a liderar a fabricante de brinquedos Mattel.
“Talvez, para certa classe de donos que não são da mídia, haja prestígio em ter propriedades de mídia”, disse Newhouse ao Financial Times. “Mas somos donos de mídia há 100 anos. Não estamos nisso pelo glamour.”
Mais cedo no ano, Lynch classificou os resumos de IA do Google — que muitas vezes dispensam o clique até o material original — como “outro tipo de golpe mortal” na forma tradicional de busca e chegada aos veículos. Ele afirmou que as buscas no Google deixaram de ser um motor relevante do negócio, representando cerca de um quarto das visitas aos sites da Condé Nast no ano passado.
Em escala global, sete das maiores marcas — Vogue, GQ, The New Yorker, Wired, Vanity Fair, Architectural Digest e Condé Nast Traveler — respondem por 85% da receita. Vendas em bancas e outras assinaturas equivalem a cerca de 14% do total; publicidade e “outros serviços”, aproximadamente 86%.
As contas indicam que a diretora mais bem remunerada — Natalia Gamero del Castillo Calleja, executiva mais sênior fora dos EUA, que renunciou em agosto — recebeu mais de 1,3 milhão de libras. Ainda em 2026, a Condé Nast anunciou o encerramento da revista feminina de saúde Self, após 47 anos.
Impacto na prática
Para leitores e anunciantes no Reino Unido e em outros mercados onde as marcas circulam, a combinação de receita doméstica menor, custos de pessoal e aposta em serviços sob medida pode, em tese, influenciar o mix de conteúdo patrocinado e a oferta editorial digital — sem que as contas prevejam cortes amplos de equipe no país.
No setor de mídia de luxo, a decisão da família Newhouse de manter o controle e descartar uma venda sugere que estratégias de crescimento dependerão de reorganização interna e de novas linhas de receita, e não de um comprador externo como os especulados nos últimos meses. A dependência reduzida do tráfego vindo do Google, somada ao avanço de ferramentas de IA nas buscas, pode acelerar, em hipótese, a busca por assinaturas e parcerias diretas com marcas em economias onde a publicidade impressa e em bancas já representa fatia minoritária do faturamento.
Se a receita internacional continuar compensando quedas no mercado britânico, o grupo pode preservar o patamar de faturamento global perto dos 100 milhões de libras na unidade UK — mas com margens mais estreitas enquanto investimentos e reestruturações forem contabilizados. Para o ecossistema editorial internacional, o caso reforça o dilema entre monetizar audiência fora das plataformas de busca e sustentar títulos icônicos sem o impulso pontual de vendas de imóveis como o de 2024.
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