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Mercado low cost encolhe no Brasil após saída da argentina Flybondi

Mercado low cost encolhe no Brasil após saída da argentina Flybondi

Com a Flybondi fora do país após crise financeira, o segmento de baixo custo fica em três aéreas internacionais, em meio a combustível caro e alta tributação.

Ilustração: Sora Shimazaki (Pexels)

Já diminuto, o mercado de companhias aéreas low cost (de baixo custo) no Brasil sofreu um novo baque após a saída da argentina Flybondi neste ano, segundo reportagem do C-Level, o site de negócios e finanças da Folha de S.Paulo. As operações do segmento passaram a se concentrar em três empresas, todas internacionais, com rotas que ligam cidades brasileiras a outros destinos da América Latina.

A Flybondi entrou em uma grave crise financeira, que se aprofundou e levou à interrupção das operações. A Folha tentou contato por e-mail, mas não obteve resposta: a companhia demitiu a equipe de comunicação e o site está fora do ar.

Especialistas apontam cenário de combustível caro e alta tributação como obstáculo à atração de novas aéreas de baixo custo, em um mercado que ainda cresce em volume de passageiros.

O que aconteceu

Em julho, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) limitou a comercialização de passagens da Flybondi para Florianópolis, Maceió e Salvador. Em agosto, suspendeu também a venda de novos bilhetes na rota Buenos Aires–Rio de Janeiro. Segundo a autarquia, entre 1º e 27 de julho a empresa cancelou 79% dos voos registrados. A última operação da argentina registrada pela Anac no país foi em 19 de agosto.

Em julho, a agência afirmou ter identificado sequência de cancelamentos, redução significativa das operações no Brasil, divergências entre a programação cadastrada e os voos efetivamente realizados, além de aumento de reclamações de passageiros.

Lançada em 2018 com a proposta de viagens mais baratas, no modelo de empresas como a europeia Ryanair e a americana Spirit, a Flybondi integra o tipo de companhia que separa o transporte aéreo de serviços acessórios — alimentação, reserva de assento e bagagem despachada —, cobrados à parte para reduzir o preço do bilhete. A Anac não estabelece classificação oficial de low cost; a expressão é usada pelo mercado.

Hoje, segundo a Folha, o segmento no país se concentra em rotas das chilenas Sky Airline e JetSMART e da dominicana Arajet, que conectam o Brasil a destinos na Argentina, no Chile, no Peru, no Uruguai e na República Dominicana. Na última década, o país já viu saídas como a da alemã Condor — que, pelos registros da Anac, atuou de março de 2018 a novembro de 2019 e, neste ano, teve uma única operação registrada em fevereiro, entre Frankfurt e o Rio — e a da norueguesa Norwegian, que deixou o trecho Galeão–Gatwick (Londres) na pandemia.

Em 2025, o Brasil transportou 129,6 milhões de passageiros em voos domésticos e internacionais, alta de 9,4% sobre o ano anterior, segundo a Anac. No internacional, foram 28,4 milhões, recorde histórico. O crescimento da demanda, porém, não se traduziu em maior presença de low costs.

Em setembro, a tarifa aérea real média no país foi de R$ 746,62 por trecho: queda de 0,5% ante setembro de 2025, mas ainda 1,9% acima de setembro de 2024. O preço médio do QAV (querosene de aviação) ficou em R$ 5,66 por litro, alta de 54,4% em relação a setembro de 2025 e de 32,5% ante setembro de 2024, em valores atualizados pelo IPCA. A reportagem associa o encarecimento do combustível, em parte, à guerra no Irã.

O advogado André Soutelino, especialista em direito aeronáutico, afirma que o “custo Brasil”, com alta tributação e combustível caro, impede a atração de novas aéreas. Segundo ele, cerca de 40% do custo de uma companhia aérea no país é combustível, contra média mundial de 30%, e a desvalorização do real na última década piorou o quadro, pois boa parte dos custos é dolarizada. Adalberto Febeliano, especialista em aviação civil, aponta que características do mercado nacional e a legislação brasileira também dificultam o modelo low cost, baseado em receitas auxiliares e procedimentos como check-in remoto.

Impacto na prática

Na prática, a saída da Flybondi pode reduzir opções de tarifas mais agressivas em rotas internacionais ligadas à América Latina, em um momento em que o trecho médio já supera R$ 740 e o combustível de aviação ficou bem mais caro em um ano. Quem busca voos baratos a destinos como Argentina, Chile, Peru, Uruguai ou República Dominicana pode ficar mais dependente das três low costs que restam e das aéreas tradicionais que disputam o mesmo público no exterior.

Em tese, a combinação de combustível elevado, câmbio e tributação pode continuar a frear a entrada de novas concorrentes de baixo custo no Brasil, mesmo com o recorde de 28,4 milhões de passageiros internacionais em 2025. Isso não significa, por si só, que as tarifas voltarão a subir de forma automática — em setembro a média real caiu levemente na comparação anual —, mas sugere que a pressão de custos permanece no radar de passageiros e de empresas do setor.

Se o cenário de combustível caro e poucas low costs se mantiver, a disputa por preço nas rotas internacionais pode ficar mais estreita, e a expansão do modelo de baixo custo no país tende a depender, segundo os próprios especialistas citados, de condições de custo e de regras que hoje pesam contra novas entradas.

Fontes: GN economia BR 1d

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