Microsoft desiste de megaprojeto de datacenter de IA em Essex por energia

A Microsoft encerrou acordo com a britânica Nscale em Loughton, após alertas sobre rede elétrica e atrasos; o empreendimento era peça da estratégia de IA do governo Starmer.
Foto: Matheus Bertelli (Pexels)
A Microsoft abandonou um megaprojeto de datacenter voltado à inteligência artificial em Essex, no sudeste da Inglaterra, após sinalizar preocupações com o fornecimento de energia elétrica. A decisão representa um novo revés para um empreendimento que o governo britânico havia apresentado como símbolo da aposta do país em infraestrutura para IA.
O complexo seria desenvolvido pela empresa britânica Nscale em Loughton, com previsão de inauguração no ano que vem. Quando o plano foi anunciado, em 2025, ministros o descreveram como o maior datacenter de IA do Reino Unido. A Microsoft figurava entre os principais clientes previstos e deveria ser a âncora do negócio, mas informou à Nscale que encerrava o acordo, segundo reportagem publicada neste domingo (18).
O caso ganha relevância porque datacenters funcionam como o sistema nervoso central de tecnologias de IA, como assistentes conversacionais. O governo de Keir Starmer destacou o projeto de Loughton ao divulgar a estratégia nacional de inteligência artificial em 2025, classificando-o como o “maior datacenter soberano de IA do Reino Unido”. Com a saída da Microsoft — noticiada inicialmente pelo Telegraph — a Nscale perde o único cliente publicamente anunciado para a unidade em Essex.
O que aconteceu
As dúvidas em torno do empreendimento já existiam antes da ruptura com a Microsoft. Em março, o Guardian revelou que o terreno escolhido em Loughton ainda funcionava como um pátio operacional de andaimes, o que alimentou questionamentos sobre o ritmo real da obra.
Há cerca de um mês, veio à tona que problemas no suprimento de energia fariam o projeto enfrentar uma espera prolongada antes de entrar em operação. Nesse contexto, a Microsoft comunicou à Nscale o fim da parceria ligada a Essex, citando as preocupações com a rede elétrica.
A Nscale conta com o respaldo de empresas de tecnologia, entre elas a Nvidia, e se apresenta como fornecedora “soberana” de datacenters no Reino Unido. Segundo a reportagem, a perda da âncora em Loughton pode comprometer a ambição da companhia de abrir capital na Wall Street ainda neste ano, em uma operação que a imprensa britânica associa a uma avaliação potencial de US$ 35 bilhões (cerca de £26 bilhões).
Em nota, a Nscale afirmou manter compromisso com o projeto em Loughton e com o Reino Unido, e disse explorar fontes alternativas de energia para o local, além de outros pontos de expansão no país. A empresa classificou o impasse como um “infeliz problema de rede em toda Londres” e ressaltou que a relação com a Microsoft segue “forte e de longo prazo”, sem impacto, segundo o comunicado, em outros contratos. De acordo com informações citadas pela reportagem, a Microsoft permanece envolvida em outro projeto da Nscale na Noruega.
Impacto na prática
Para consumidores e empresas que dependem de serviços em nuvem e de ferramentas de IA, o episódio pode, em tese, sinalizar que a expansão da capacidade de processamento no Reino Unido não acompanha o calendário político anunciado em 2025. Se atrasos ligados à eletricidade se repetirem em outros sites, casos semelhantes sugerem que novos datacenters de IA poderiam demorar mais para absorver a demanda por computação — com possível reflexo em preços, disponibilidade regional de serviços ou priorização de instalações em mercados com rede mais estável.
No plano nacional, o revés em Essex pode, hipoteticamente, enfraquecer o discurso de “soberania” em infraestrutura de IA que o governo Starmer associou ao projeto de Loughton. Investidores que acompanham o setor podem interpretar a saída da Microsoft como um teste de credibilidade para planos de IPO da Nscale, embora a empresa insista que busca alternativas energéticas e mantém outros acordos.
Mais amplamente, o caso ilustra como a corrida global por datacenters de IA pode esbarrar em gargalos de energia urbana — um tema que, conforme o relato do Guardian, já afetava a região de Londres antes mesmo do anúncio da Microsoft. Políticas de transição energética e licenciamento de redes, no Reino Unido ou em outros países com metas agressivas de IA, podem passar a ser debatidas com mais ênfase se projetos emblemáticos continuarem a enfrentar atrasos por falta de capacidade elétrica.
Se a Nscale conseguir viabilizar novas fontes de energia e substituir a âncora perdida, o empreendimento em Loughton ainda poderia retomar tração; caso contrário, o episódio pode reforçar críticas de que parte da estratégia multibilionária britânica em IA repousa em investimentos ainda incertos — um debate que a própria imprensa do país já havia associado a alegações de “investimentos fantasmas” no setor.
Fontes: The Guardian
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