Monetização de IA no Sudeste Asiático ainda é nascente, mas uso impulsiona e-commerce

Relatório e-Conomy SEA 2026 diz que monetização da IA no Sudeste Asiático ainda é baixa, mas uso em recomendações e conteúdo já impulsiona o e-commerce.
Foto: Yaroslav Shuraev (Pexels)
A monetização da inteligência artificial (IA) no Sudeste Asiático ainda é descrita como “nascente”, mas o uso crescente da tecnologia em recomendações de produtos e na criação de conteúdo já contribui para impulsionar o comércio eletrônico da região, segundo o relatório e-Conomy SEA 2026, divulgado nesta quarta-feira (21) em Singapura.
O estudo, apresentado por representantes da Bain & Company, do Google e da Temasek Holdings, aponta que a economia digital do bloco deve alcançar US$ 368 bilhões em 2026, em meio a incerteza econômica e a uma captura de receita ainda muito baixa a partir da IA.
O que aconteceu
Em cobertura da Nikkei Asia a partir de Singapura, o jornalista Kentaro Takeda destaca o contraste central do relatório: a adoção prática da IA no varejo online avança, enquanto a conversão desse uso em faturamento direto permanece limitada. Recomendações personalizadas e ferramentas de geração de conteúdo ajudam plataformas e vendedores a atrair e converter demanda, mesmo sem um modelo maduro de cobrança ao usuário final.
O e-Conomy SEA é um programa de pesquisa plurianual do Google e da Temasek, com a Bain como parceira líder. Na edição de 2026, o foco recai sobre a construção de uma economia de IA nos principais mercados digitais da região e sobre o papel da tecnologia no crescimento do valor bruto de mercadoria (GMV) do ecossistema online. A Nikkei também assinala que o financiamento privado para infraestrutura digital sobe com força.
Dados do relatório reforçam o diagnóstico de monetização precoce. Apenas cerca de 1% a 2% da população dos seis mercados principais (SEA-6) paga hoje para usar IA generativa, contra cerca de 3% dos domicílios nos Estados Unidos. A maior parte dos usuários permanece em camadas gratuitas, e anúncios em plataformas autônomas de IA generativa ainda não foram amplamente implantados, embora sejam esperados.
Ao mesmo tempo, cerca de 243 milhões de pessoas na SEA-6 — o equivalente a 58% da população em idade laboral — adotaram IA generativa em menos de três anos. Em termos per capita, o volume de uso ainda fica próximo de 10% do nível dos Estados Unidos. No comércio eletrônico, 69% dos consumidores da SEA-6 usam IA para comparar produtos e 93% confiam nas recomendações; do lado das empresas, descoberta multimodal, assistência conversacional e recomendações hiperpersonalizadas já sustentam ganhos de volume de pedidos que, em alguns casos, chegam a cerca de 75%.
Nesse cenário, a economia digital da região projeta crescimento de GMV da ordem de 17% neste ano e mantém trajetória rumo a US$ 1 trilhão até 2035, apesar de ventos contrários geopolíticos e macroeconômicos.
O que isso pode mudar
Se a adoção continuar à frente da monetização, plataformas de e-commerce do Sudeste Asiático podem consolidar a IA menos como produto avulso e mais como camada operacional — descoberta, atendimento e conversão — antes de escalar assinaturas premium. Nesse cenário, a receita tenderia a surgir primeiro em publicidade de comércio e ferramentas para lojistas, e só depois em planos pagos em massa para o consumidor.
A chegada eventual de anúncios em serviços de IA generativa também poderia alterar a economia dos aplicativos “gratuitos”, aproximando o modelo do que já ocorre em busca e redes sociais. Para varejistas e marcas, isso pode significar novos formatos de mídia e maior dependência de sistemas de recomendação cuja confiança o relatório já descreve como elevada.
Para investidores e formuladores de política, o quadro sugere uma janela em que infraestrutura, dados e integração empresarial importam tanto quanto o lançamento de chatbots. Caso o gap per capita frente a mercados desenvolvidos se feche e o uso corporativo ganhe peso — como já se observa em Singapura e na Malásia —, a monetização pode deixar de ser “nascente” com mais rapidez. Se a incerteza econômica frear gastos discricionários, o uso pode seguir alto sem que a disposição a pagar avance no mesmo ritmo.
Fontes: Nikkei Asia
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