Panetta no BIS pede resiliência climática após US$ 200 bi em danos em 2025

Na Green Swan em Manila, o presidente do Banco da Itália liga danos extremos de 2025 a seguro, dados e adaptação — sem ampliar o mandato dos bancos centrais.
Ilustração: Sinan KRIYA (Pexels)
Em Manila, o presidente do Banco da Itália, Fabio Panetta, abriu a Green Swan Conference 2026 com um alerta direto: o risco físico do clima já pressiona a economia e o sistema financeiro, e a mitigação sozinha não basta. O encontro, em 19 de outubro, foi organizado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), o banco central das Filipinas, a Banca d’Italia e a Rede para o Sistema Financeiro Verde (NGFS).
Panetta citou mais de US$ 200 bilhões em danos diretos por eventos climáticos extremos em 2025 — mais do que o dobro do início dos anos 2000 — e pediu resiliência em três frentes: entender melhor os riscos, compartilhá-los e absorvê-los com mais eficiência, e investir para reduzir exposição e vulnerabilidade.
O que aconteceu
Desde a primeira Green Swan, em 2021, o tema deixou de ser tratado sobretudo como ameaça a gerações futuras. Segundo o discurso publicado pelo BIS, a mudança do clima já reduz produtividade, destrói capital físico e tensiona as contas públicas. Choques climáticos também podem afetar a inflação, com efeitos potencialmente mais graves em mercados emergentes e economias em desenvolvimento, onde a exposição costuma ser maior e a capacidade de absorção, menor.
A responsabilidade pela política climática, frisou, cabe em primeiro lugar aos governos. Políticas precisam ser economicamente viáveis, socialmente sustentáveis e institucionalmente críveis: regras rígidas demais ou revertidas com frequência podem erodir o apoio público e afastar o investimento privado. Bancos centrais e supervisores têm mandato distinto — o desafio não é expandir atribuições, e sim cumprir as existentes num ambiente em mudança, compreendendo efeitos sobre inflação, atividade e estabilidade financeira.
Há lacunas de dados e comparabilidade; riscos físicos são localizados e se concentram em períodos de eventos extremos. O Comitê Irving Fisher e a Banca d’Italia já trabalham em estatísticas e metodologias. Na gestão de riscos, a integração ainda é desigual, inclusive na Itália e na área do euro. O clima não deve ser exercício isolado de conformidade, e sim parte da avaliação de crédito, mercado, operação e seguros. A inteligência artificial (IA) pode ajudar em modelagem, previsão, alertas e avaliação de extremos — sem substituir dados confiáveis, modelos sólidos nem julgamento humano.
Grande parte das perdas por catástrofes naturais segue sem seguro. Essa lacuna deixa famílias e empresas expostas e força intervenções fiscais pós-desastre. Panetta defendeu um arcabouço em camadas — seguro privado, resseguro, backstops públicos e instrumentos de mercado de capitais, inclusive títulos ligados a catástrofes. O desenho remonta ao G7 italiano de 2024 e foi reafirmado sob a presidência francesa deste ano. A Itália, citou, introduziu seguro obrigatório contra inundações, terremotos e deslizamentos para empresas fora do agronegócio, com apoio público.
Reduzir risco exige adaptação antes do desastre. Em países com alta exposição e pouco espaço fiscal, alerta, forma-se um ciclo perverso entre clima e dívida. A adaptação segue subfinanciada, sobretudo em emergentes; bancos multilaterais podem mobilizar capital privado com garantias e finanças mistas. Centros de dados elevam demanda por energia, água e matérias-primas críticas — pressão a gerir para que a inovação digital fortaleça resiliência sem criar novas vulnerabilidades.
O que isso pode mudar
Se a mensagem de Manila se traduzir em prática, supervisores e mercados poderiam acelerar a integração do risco físico aos balanços e ao preço do seguro, tornando mais caros ativos e regiões altamente expostos e, em tese, direcionando capital para adaptação onde ela é mais urgente. Programas público-privados no molde do G7 poderiam ganhar escala, reduzindo a dependência de socorro fiscal depois de cada choque.
Para economias emergentes, o discurso sugere que sem projetos investíveis e regras claras o financiamento de adaptação pode continuar aquém da necessidade. Já para bancos centrais, a linha de Panetta aponta continuidade de mandato sob novo cenário, e não missão climática ampliada — o que, se prevalecer, manteria o foco em estabilidade e inflação, com mais dados e cooperação internacional ante choques que atravessam fronteiras por comércio, mercados e cadeias de suprimento.
Fontes: BIS Speeches
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