Pensão estatal do Reino Unido fica abaixo da média de países ricos na OCDE

Com dados da OCDE, a BBC mostra taxa de reposição britânica de 54,2% ante 63,2% nos países ricos, custo do triple lock e plano de Burnham para mudar o reajuste.
Ilustração: dp singh Bhullar (Pexels)
A pensão estatal do Reino Unido aparece abaixo da média dos países ricos na taxa de reposição — a relação entre o benefício típico na aposentadoria e os ganhos médios dos trabalhadores —, segundo análise da BBC Business com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O debate se intensifica com o custo do triple lock e com a intenção de Andy Burnham de alterar a fórmula de reajuste nos próximos anos.
Desde 2011, o triple lock eleva a pensão estatal pelo maior valor entre 2,5%, o crescimento dos salários ou a inflação, o que fez esses benefícios avançarem bem mais rápido do que os ganhos dos trabalhadores. Com a moradia em alta, a pobreza entre pensionistas cresceu ligeiramente na última década; ainda assim, os aposentados têm menor probabilidade de pobreza relativa — renda abaixo de 60% da renda típica dos lares — do que famílias com filhos ou pessoas em idade ativa.
O financiamento do mecanismo já custou ao Estado bilhões a mais do que o previsto, e a discussão sobre sustentabilidade e equidade continua. Burnham pretende iniciar em poucos anos um sistema em que a pensão estatal subiria pelo menos pela inflação ou por 2,5%, sem o vínculo automático anual com a média salarial. Segundo a BBC, isso tende a gerar reajustes menos generosos no curto prazo, embora o benefício acompanhe o crescimento dos salários no longo prazo.
O que aconteceu
A OCDE projeta o cenário para quem nasceu no início dos anos 2000, com salários médios e o sistema previdenciário de 2022. Nessa base, a pensão estatal básica britânica fica baixa frente a outros países ricos — mesmo com a adesão automática a planos ocupacionais. Somando pensão estatal e esses esquemas, os benefícios de aposentadoria no Reino Unido, após impostos, equivaleriam a 54,2% dos ganhos médios britânicos, ante 63,2% na média dos países ricos.
Há ainda renda de outras pensões ocupacionais e pessoais, mais prevalentes no Reino Unido; ao incluí-las, a diferença diminui. Quem depende só da pensão estatal, porém, fica bem pior do que muitos aposentados em outros países. O gasto com a pensão estatal deve ultrapassar 150 bilhões de libras por ano e é o benefício mais caro de financiar. Em proporção à economia, o Estado britânico destina menos a benefícios totais de aposentadoria do que a média dos países ricos, segundo a OCDE.
A BBC destaca escolhas políticas — como volumes maiores para saúde universal — e o envelhecimento: a OCDE estima que o montante necessário para pensões pode disparar em muitas nações até 2060, com exceções sobretudo onde há reformas. As projeções para o Reino Unido tendem a subir menos sob o triple lock revisado de Burnham, mas ainda podem implicar mais endividamento. Hoje, 1 de cada 13 libras gastas pelo governo paga juros da dívida; países com pensões mais generosas, como a Itália, já enfrentaram pressão por reformas.
A adesão automática a pensões no trabalho coloca o Reino Unido à frente na exigência de pensões privadas universais, mas escancara a lacuna de gênero. Em países ricos, o hiato típico entre a renda média de pensão de homens e mulheres com 65 anos ou mais fica em torno de 22,8% a favor dos homens. No Reino Unido, as mulheres recebem tipicamente cerca de um terço a menos, sobretudo pela dependência de pensões privadas; os dados mais recentes da OCDE para o país são de 2021. Remunerações menores, interrupções de carreira e trabalho em tempo parcial pesam sobre as reservas acumuladas.
Impacto na prática
O quadro pode afetar sobretudo quem no Reino Unido depende quase só da pensão estatal: a taxa de reposição pós-impostos abaixo da média da OCDE sugere, em tese, renda de aposentadoria mais apertada do que a referência dos países ricos. Quem soma planos ocupacionais e pessoais pode ver a diferença em relação ao exterior estreitar-se, segundo os números citados pela BBC.
A eventual troca do triple lock por uma regra sem vínculo automático anual com os salários pode, em hipótese, suavizar o ritmo dos reajustes e aliviar parte da pressão fiscal — com aumentos potencialmente menos generosos no curto prazo. A lacuna de gênero pode continuar a amplificar desigualdades na velhice onde a poupança privada pesa mais. Em países com pensões públicas mais generosas e populações envelhecendo, como sugere o caso italiano, o desenho do benefício pode voltar ao centro do debate orçamentário.
O retrato da OCDE e o custo crescente do triple lock indicam que o equilíbrio entre generosidade da pensão estatal, poupança privada e sustentabilidade das contas públicas deve permanecer no radar político britânico — e, em tese, alimentar comparações semelhantes em outras economias avançadas que enfrentam o mesmo envelhecimento demográfico.
Fontes: BBC Business
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