Pitch deck perde força entre VCs que usam IA para filtrar startups

Leslie Feinzaig, na Fast Company, diz que decks genéricos feitos por IA irritam investidores e que 72% dos VCs já usam a tecnologia na triagem.
Foto: Yaroslav Shuraev (Pexels)
A rotina de revisar apresentações de startups deixou de ser estimulante para muitos investidores. Em artigo na Fast Company, a venture capitalist Leslie Feinzaig pergunta se já passou da hora de fundadores abandonarem o clássico pitch deck — sobretudo os gerados em massa por inteligência artificial (IA).
Segundo ela, o problema não é só o visual padronizado. É quando a ferramenta faz o raciocínio no lugar do empreendedor, e o documento vira “baunilha” indistinguível. Colegas investidores, jornalistas e editores relatam o mesmo cansaço diante de pitches genéricos.
O que aconteceu
Feinzaig lembra que um apelo seu, em agosto, pedindo que fundadores parem de enviar decks “slop” feitos por IA viralizou. A reação veio sobretudo de pares: a maioria dos venture capitalists (VCs) consegue identificar quando a apresentação foi gerada por máquina e se irrita com a monotonia. Fundadores, em público, quase não responderam — talvez porque o conselho tenha doído. Muitos odeiam fazer decks e desconfiam de gastar dezenas de horas em algo que um agente resume em segundos.
Para medir o uso de IA no lado do capital, ela fez uma enquete rápida no LinkedIn e conversou com respondentes. Resultado: 72% dos VCs usam IA para revisar pitch decks, em geral como apoio — 39% passam o material pela IA antes da leitura humana e 29% fazem o caminho inverso. Outros 28% ainda não usam IA nessa etapa; quase ninguém depende só da máquina. Há poucos anos, cerca de 99% não usavam IA nesse fluxo. A tendência, escreve, aponta para mais automação, não menos.
O volume explica parte do movimento. Rebecca Mitchell, GP da Scrub Capital, fala em mais de 50 deals por semana. B. Pagels-Minor, da DVRGNT Ventures, liga IA a escala na diligência. Em casos extremos, como a Blue Moon VC de Ben Orthlieb, a IA opera quase tudo — e o sócio diz não precisar de deck.
O pano de fundo é um mercado sob pressão: concentração de capital (no primeiro trimestre, 75% do dinheiro de limited partners teria ido a só cinco fundos), vencedores em IA que aceleram valuation e exits, e mais fundadores do que nunca. Feinzaig descreve uma tempestade perfeita de “capital de consenso”, em que VCs disputam fundadores “legíveis” — aqueles que parecem capazes de um hiperescalonamento rápido.
Nesse cenário, um deck bonito não basta. Ela propõe três “T”s de legibilidade: trajetória (histórico que sinaliza velocidade futura), relações de confiança (indicações e redes) e tração (evidência de negócio). Continua fazendo sentido um instrumento legível por IA — deck ou memo — mais uma história substantiva e uma data room sólida. O que sobra, diz, é o formato genérico de slides.
O que isso pode mudar
Se a triagem automatizada se generalizar, o pitch deck tradicional pode deixar de ser o bilhete de entrada e virar relíquia. Fundadores poderiam priorizar memos claros, narrativas com substância e provas de tração, em vez de slides uniformes. Também pode crescer a distância entre quem já é “legível” aos olhos dos grandes fundos e quem não encaixa no padrão — com risco de hype, FOMO e distorções de métricas no caminho.
Há ainda a hipótese de que parte do ecossistema abandone a busca por venture capital e aposte em bootstrap e receita de clientes. Feinzaig argumenta que o VC não é o único nem o melhor caminho para a maioria. Em paralelo, modelos totalmente operados por IA, hoje raros, poderiam deixar de ser exceção — e aí a própria ideia de “enviar um deck” perderia sentido para muitos investidores.
Fontes: Fast Company – Is it time for founders to ditch the pitch deck?
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