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Reino Unido reparte data centers entre três pastas e deixa empresas no labirinto

Reino Unido reparte data centers entre três pastas e deixa empresas no labirinto

Após a reforma de Burnham, política de data centers, telecom e energia ficam em pastas distintas. Liz Lloyd diz que as responsabilidades estão claras; o mapa, porém, é complexo.

Ilustração: Brett Sayles (Pexels)

Quem pretende erguer um data center no Reino Unido precisa cruzar pelo menos três frentes do governo. A política do setor, as telecomunicações e a energia estão em pastas diferentes — e a reforma de verão do primeiro-ministro Andy Burnham reacendeu a pergunta de como as empresas navegam Whitehall.

Nesta semana, deputados ouviram Liz Lloyd, subsecretária parlamentar de Estado com atuação no Departamento de Negócios, Inovação, Ciência e Comércio (BIST) e no Departamento de Digital, Cultura, Mídia e Esporte (DCMS). Ela insistiu que as responsabilidades setoriais estão claras, mesmo reconhecendo sobreposições.

O que aconteceu

Segundo o The Register, construir um data center britânico envolve três departamentos: um cuida da política de data centers, outro das telecoms e um terceiro da energia. Com a extinção do Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia (DSIT), o contato com a indústria de tecnologia sobre a construção desses centros passou ao BIST.

Lloyd, que trabalha entre BIST e DCMS, explicou ao Comitê de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Comuns que a infraestrutura digital ficou sob o DCMS. Na audiência, admitiu que algumas atribuições se sobrepõem, mas afirmou: em termos de responsabilidade setorial, telecom fica com o DCMS e data centers com o BIST — e que, para quem está na indústria ou tenta tocar um negócio, isso ficaria claro.

Há ainda a conta de luz. Pelo que o The Register conseguiu mapear, o acesso à energia cairia no Departamento de Energia e Net Zero. A licença de planejamento fica com o governo local, enquanto a política geral cabe ao Ministério da Habitação, Comunidades e Governo Local. Em resumo da reportagem: pode estar claro no organograma; simples, não é.

O atrito não é teórico. No começo deste mês, a Microsoft desistiu de planos para o maior supercomputador de inteligência artificial (IA) da Grã-Bretanha por dificuldades em garantir energia para a instalação — um sinal de que a divisão entre pastas e a rede elétrica já pesam em decisões de investimento.

Na mesma sessão, Lloyd foi questionada sobre a promessa de início de 2025 de que modernizar tecnologia antiga e digitalizar processos poderia gerar 45 bilhões de libras em ganhos de produtividade. Ela disse que a cifra era estimativa de ganhos de longo prazo, não meta pontual nem economia “caixaível”. O comunicado de janeiro de 2025, ainda sob o governo Starmer, falava em serviços públicos perdendo 45 bilhões anuais por dependência de sistemas ultrapassados e em ferramentas digitais, IA e “bom senso” para reformar a tecnologia do setor público.

O que isso pode mudar

Se a leitura de Lloyd prevalecer, o mercado pode ter de tratar o BIST como porta de entrada para data centers e o DCMS como âncora de infraestrutura digital e telecom — e, em paralelo, negociar energia e planejamento com outras esferas. Na prática, isso pode alongar prazos e elevar o custo de coordenação para quem precisa de energia estável e autorização local ao mesmo tempo.

O caso da Microsoft sugere que a disponibilidade de rede pode continuar a filtrar projetos de grande porte, sobretudo os ligados a IA. Sem um ponto único de interlocução, a hipótese mais cautelosa é a de que o “mapa claro” no discurso oficial ainda se traduza em filas, transferências entre pastas e incerteza para investidores que medem o Reino Unido contra mercados com trâmite mais concentrado.

Para o setor público, a reabertura do tema dos 45 bilhões também pode recalibrar expectativas: se a cifra deixa de soar como economia imediata e vira horizonte de produtividade, a pressão por resultados rápidos em digitalização pode perder força — ou, ao contrário, exigir novas metas mais explícitas. O que a audiência deixa em aberto é se a clareza proclamada por Lloyd basta para destravar obras, ou se o labirinto ministerial seguirá sendo o primeiro obstáculo depois do terreno e da tomada.

Fontes: The Register

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