Rest of World busca novo lar e prepara plano de encerramento para janeiro

A publicação de tecnologia global Rest of World perde tráfego e negocia absorção; plano de contingência aponta fim de janeiro.
Ilustração: Nothing Ahead (Pexels)
A Rest of World, publicação digital de seis anos voltada a histórias globais de tecnologia, corre para encontrar um novo lar institucional — ou enfrenta a possibilidade de encerrar as atividades. Segundo a Semafor, o tráfego de redes sociais e de busca na web, do qual o veículo depende, evaporou, e a fundadora e principal financiadora, Sophie Schmidt, avalia alternativas para o futuro da organização.
Conversas com grandes instituições sobre uma eventual absorção seguem em curso. Em paralelo, a redação já fixou uma data de contingência de encerramento para o fim de janeiro, pensada para garantir pacotes de saída e tempo para a equipe buscar outro emprego.
O que aconteceu
Fundada em 2020, a Rest of World nasceu com a meta de deslocar o olhar ocidental ao cobrir tecnologia fora do circuito habitual da imprensa norte-americana. Poucos meses após o lançamento, Schmidt definiu o projeto como o da sua vida e disse ao The Wall Street Journal que destinaria US$ 60 milhões à iniciativa. Inicialmente organizada como organização sem fins lucrativos e financiada sobretudo por ela — e não por publicidade ou assinaturas —, a casa contratou dezenas de jornalistas e montou uma rede rápida de freelancers. O trabalho ganhou reconhecimento crítico e reportagens, como as sobre o Uber Eats na África do Sul e o mapeamento no interior de Bornéu, chegaram a influenciar mudanças de política em escala global.
Nos últimos 18 meses, o cenário mudou. Por volta do início do segundo governo Trump, a direção registrou queda acentuada de visitas online e tentou reter leitores: priorizou o público ocidental, concentrou cobertura em regiões consideradas fiéis à missão e mais atrativas para leitores americanos — entre elas a China — e passou a exigir cadastro para ler as matérias. Nada disso, segundo a Semafor, estancou a perda de audiência.
Fontes internas apontam problemas setoriais amplos: a Meta reduziu a prioridade de links para notícias, e o avanço de chatbots e de resumos gerados por inteligência artificial (IA) corroeu o tráfego de busca. O veículo também não se beneficiou do pico de atenção midiática ligado a Trump e à política dos Estados Unidos. Líderes da própria organização ligam parte da retração a uma virada cultural à direita no meio tech: leitores que antes consumiam jornalismo global teriam se afastado da imprensa e preferido podcasts, programas no YouTube e respostas de chatbots voltados para dentro. Em um mercado cada vez mais dominado por vídeo curto e longo, títulos caros e de ritmo menos frequente, como a Rest of World, sentem o aperto com especial força.
Schmidt não quis comentar. Uma pessoa afeita ao seu raciocínio afirmou à Semafor que ela se orgulha da equipe e do jornalismo, mas reconheceu em privado que a queda de audiência diminuiu o impacto do projeto. Duas pessoas familiarizadas com os planos confirmaram a data de wind-down no fim de janeiro como contingência, enquanto as tratativas de absorção continuam.
O que isso pode mudar
Se as conversas com instituições grandes avançarem, a Rest of World poderia sobreviver sob outro guarda-chuva, preservando parte da redação e da linha editorial global. Se o plano de contingência se concretizar, o fechamento no fim de janeiro encerraria um experimento de mídia tech financiado por capital filantrópico concentrado — a publicação é liderada pela herdeira do ex-CEO do Google — e reduziria ainda mais o espaço para reportagem internacional cara em um ecossistema já fragmentado.
No médio prazo, o caso tende a reforçar a pressão sobre veículos escritos que dependem de descoberta em redes e em busca: sem audiência estável, o impacto editorial — e a capacidade de manter dezenas de jornalistas e freelancers — encolhe, mesmo com acervo premiado. A ironia apontada pela Semafor permanece no ar: uma redação criada para contar o mundo da tecnologia pode ser vítima das mesmas mudanças que as grandes plataformas impuseram à internet.
Fontes: Semafor
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