Scotti no BIS defende âncora pública e inovação privada no dinheiro digital

Chiara Scotti, do Banco da Itália, diz no BIS que o sistema de dois níveis segue válido na digitalização, com âncora pública e inovação privada.
Ilustração: Rafael Minguet Delgado (Pexels)
O Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements, BIS) divulgou discurso da vice-governadora do Banco da Itália, Chiara Scotti, sobre o sistema monetário de dois níveis na transição digital. A fala foi proferida em Milão, em 23 de outubro de 2026, no encontro do Institut International d’Études Bancaires.
Scotti argumenta que a digitalização reabre a convivência entre dinheiro público e privado, mas não torna obsoleta a lógica de uma âncora monetária pública combinada com intermediação e inovação privadas.
O que aconteceu
No texto publicado pelo BIS, a vice-governadora sustenta que o sistema de dois níveis responde a um problema de desenho recorrente: preservar a confiança ao unir âncora pública e capacidade privada de intermediar e inovar. Instrumentos, infraestruturas, instituições e modelos de negócio mudam; a questão, diz ela, é o que conservar e o que pode evoluir com segurança.
No varejo, o dinheiro em espécie historicamente ofereceu uma opção pública de saída; com os pagamentos digitais, uma moeda digital de banco central (central bank digital currency, CBDC) — no caso europeu, o euro digital — poderia estender esse papel. Bancos centrais forneceriam o ativo monetário público e a infraestrutura comum; intermediários supervisionados distribuiriam o instrumento, cuidariam do relacionamento com o cliente e competiriam nos serviços de ponta.
No mercado atacadista, se títulos, garantias e instruções contratuais migrarem para plataformas de tecnologia de registro distribuído (distributed ledger technology, DLT), o dinheiro de banco central pode precisar estar disponível em novas formas. Scotti alerta que, sem esse ativo isento de risco no ambiente relevante, cresceria a dependência de meios privados de liquidação — com crédito, liquidez e eventual concentração do emissor no próprio processo de settlement. Segundo ela, se o dinheiro privado se tornasse o principal meio de liquidação atacadista, o sistema retrocederia a um mundo pré-RTGS.
Sobre tokenização, ela descreve dois extremos: um ecossistema interoperável, com padrões comuns e competição por qualidade, preço e inovação; ou uma multiplicidade de plataformas proprietárias sem interoperabilidade, com fragmentação de ativos, liquidez e conexões. Incentivos privados, diz, podem tornar o segundo cenário mais provável. Cita iniciativas públicas como o euro digital, Pontes e Appia; Pontes liga plataformas DLT de mercado aos TARGET Services para liquidar ativos tokenizados em dinheiro de banco central, e Appia explora uma infraestrutura nativa digital de mais longo prazo. Pontes foi lançada em 21 de setembro de 2026, com implementação plena esperada até 2028.
Scotti também menciona estimativas de ativos tokenizados em blockchains públicas de 38 bilhões de euros em fevereiro de 2026, ante 7,4 bilhões no início de 2024, frente a ativos globais de 241 trilhões de euros no fim de 2025 — fração ainda muito pequena, e com implantação limitada de depósitos tokenizados.
O que isso pode mudar
Se o mercado acompanhar o diagnóstico, bancos e demais intermediários tendem a enfrentar pressão para experimentar e investir de forma escalonada, sem apostar cedo demais em um único caminho tecnológico. A hipótese de Scotti é que a incerteza sobre a arquitetura final recomenda flexibilidade, não passividade: capacidades úteis em vários cenários — sistemas modulares, padrões de dados, expertise em ativos digitais e ligações entre tesouraria, pagamentos e títulos — enquanto padrões e práticas ainda se formam.
Na mesma linha, a âncora monetária deveria permanecer comum mesmo que os trilhos de pagamento se diversifiquem. Isso poderia reforçar o papel de fundações públicas na redução de barreiras e na contestabilidade do mercado, ao mesmo tempo em que deixaria a criação de serviços e casos de uso com o setor privado. O desfecho, porém, dependeria das escolhas concretas de bancos e participantes — e de se a coordenação de padrões ultrapassa fronteiras sem fragmentar liquidez e finalidade da liquidação.
Fontes: BIS Speeches
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