The Verge aponta The Drift de Scott Walker como álbum que desarma a festa

Terrence O’Brien, do The Verge, recoloca o disco de 2006 de Scott Walker no radar da temporada de Halloween como escuta inquietante, experimental e quase impossível de tratar como trilha de festa.
Ilustração: cnrdmroglu (Pexels)
O The Verge voltou a The Drift, álbum de 2006 de Scott Walker, em texto de 25 de outubro de 2026 assinado por Terrence O’Brien. O editor de fim de semana descreve o disco como inquietante, bizarro e “a forma perfeita de matar uma festa” — leitura cultural que entra na série do site sobre o que se ouve, assiste e lê agora.
No enquadramento de O’Brien, a música da chamada “spooky season” se divide em dois polos: o lado lúdico, com faixas como “The Monster Mash” e o tema de Halloween de John Carpenter, e o lado genuinamente aterrador, em que o crítico coloca Throbbing Gristle, The Body e o próprio The Drift.
O que aconteceu
Segundo o The Verge, o disco do cantor e compositor não trata morte, doença e tragédia só em abstrato. A letra passa por descrições viscerais do enforcamento de Benito Mussolini e de Clara Petacci, além de referências ao 11 de Setembro, ao irmão gêmeo natimorto de Walker e ao genocídio de Srebrenica. Para O’Brien, o material lírico está “tão sombrio quanto um álbum consegue ser”.
O peso, porém, viria do fundo experimental. Em trechos, o crítico diz que o registro soa mais como trilha de um filme de Ari Aster do que como pop, mesmo na definição mais generosa. Em “Jesse”, guitarras “enjoadas” nas estrofes cedem a cordas dissonantes que “pairam de forma opressiva” no refrão. Em “Clara”, o ruído de MP3 em baixa taxa de bits seria perceptível “no maxilar”; o texto também menciona a alegação de que o percussionista teria usado o som de um golpe em carcaça de porco na batida.
O’Brien descreve canções que param de súbito, ficam em silêncio desconfortável e explodem em ruído mecânico. Balidos de animais, trabalho de foley e trechos de orquestra atonal se chocam com o vibrato de Walker. “Nada fica exatamente afinado”, escreve, e completar o álbum de uma vez pode ser difícil fora de um humor muito específico — embora persistir, segundo ele, também possa recompensar.
A reação física que o crítico associa a discos “bonitos” — arrepios e pele de galinha — aqui se inverte: o efeito seria de estremecimento e de pele arrepiada no sentido oposto, de desconforto. A imagem creditada à 4AD acompanha a peça, e o texto lembra que The Drift está disponível no Bandcamp e em serviços de streaming como YouTube Music, Apple Music, Qobuz, Deezer e Spotify.
O que isso pode mudar
A escolha de um outlet de tecnologia e cultura pop para recolocar um álbum de duas décadas no centro da conversa de outubro pode, em tese, ampliar o alcance de uma obra que o próprio crítico trata como antifesteira. Em um calendário editorial marcado por listas sazonais e playlists “assustadoras” leves, a recomendação de algo deliberadamente hostil à atmosfera de festa pode empurrar parte do público para escutas mais densas — ou, ao contrário, reforçar o status de The Drift como disco de nicho, citado mais do que consumido de ponta a ponta.
Se a leitura de O’Brien ganhar tração nas redes e nas plataformas citadas, é possível que o álbum volte a circular como contraponto à trilha festiva de Halloween, e não como trilha de fundo. O efeito prático, no entanto, permanece hipotético: depende de quanto leitores e ouvintes aceitam a promessa de um disco que, nas palavras do Verge, “entra sob a pele” — e que, de propósito, desarma qualquer ideia de festa.
Fontes: The Verge
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