VALE3 cai 4,25% e amplia perda em 2026 a 12,74% sob minério fraco

Papel fecha a R$ 61,31 na quinta e amplia a baixa do ano, enquanto bancos divergem sobre custos, produção e cobre às vésperas do balanço.
Foto: Rô Acunha (Pexels)
As ações da Vale (VALE3) ampliaram a perda acumulada em 2026 após forte pressão nesta quinta-feira, 22 de outubro. O papel recuou 4,25%, a R$ 61,31, e ficou entre as quatro maiores baixas do dia, elevando a desvalorização no ano a 12,74%, segundo a Exame. O movimento contrastou com o Ibovespa, que renova recordes e acumula alta de mais de 26% no período.
A mineradora segue pressionada pela queda do preço do minério de ferro, pela alta dos custos e por incertezas sobre a produção. Com o balanço do terceiro trimestre marcado para 29 de outubro, bancos e analistas divergem sobre se a desvalorização já incorpora os riscos de curto prazo ou se ainda há espaço para novas revisões.
O debate ganha peso porque a Vale mantém projetos de crescimento em metais como o cobre, enquanto as perspectivas para o minério — sua principal fonte de receita — deterioraram no trimestre.
O que aconteceu
A commodity de referência caiu cerca de 8% no trimestre e voltou a ser negociada perto de US$ 90 por tonelada, diante do aumento da oferta global e de sinais de enfraquecimento da demanda por aço, especialmente na China. A expansão da produção em diferentes regiões pode ampliar a concorrência, enquanto a atividade econômica chinesa apresenta sinais contraditórios. A fraqueza do setor imobiliário e a contribuição negativa de investimentos em imóveis, infraestrutura e manufatura pesam sobre a demanda por aço.
Em relatório de julho, o Morgan Stanley reduziu projeções para a Vale e elevou a estimativa de custo caixa C1 — medida dos custos operacionais de extração — para US$ 23 por tonelada em 2026, acima da orientação da companhia, de US$ 20 a US$ 21,50. O banco citou aço mundial abaixo das expectativas e a perspectiva de excedente de minério, e considerou que os avanços da divisão de Metais Básicos já estavam amplamente incorporados ao preço das ações. O recuo ocorreu em meio à renúncia de Daniel Stieler à presidência do Conselho de Administração e à abertura de processo administrativo pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre as circunstâncias de sua saída.
Nesta semana, o UBS BB afirmou que o excesso de oferta começa a se materializar e que as condições impedem uma postura mais otimista. O banco vê risco de queda nos resultados em preços, custos e volumes e considera possível que a Vale não cumpra metas de produção e custos em 2026. Estima custos totais perto de US$ 62 por tonelada e, com base no UBS Evidence Lab, produção de 89 milhões de toneladas no terceiro trimestre, 5,4 milhões a menos que em 2025. Embarques pelo porto de Itaguaí caíram 7% no trimestre, com a Serra Norte citada como principal responsável. O UBS BB reduziu o preço-alvo para R$ 73, manteve recomendação neutra e avaliou que ainda parece cedo para afirmar que se atingiu o fundo do poço.
Já o BTG Pactual vê oportunidades na expansão do cobre. O presidente Gustavo Pimenta argumentou que o mercado pode permanecer equilibrado no longo prazo, mesmo com o projeto Simandou, na Guiné, de até 120 milhões de toneladas anuais até 2030, e citou que o esgotamento de recursos pode retirar de 60 milhões a 80 milhões de toneladas anuais. O BTG ressalta, porém, que a oferta cresce mais depressa que a demanda e nota que a Vale segue negociada a cerca de 4 a 4,5 vezes o EBITDA — lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização —, abaixo da BHP, a 7–8 vezes. João Tonello, da NMS Research, apontou tendência de baixa e suportes em R$ 60,40, R$ 56,64 e R$ 55,17. Ian Lopes, da Valor Investimentos, atribuiu peso maior à fraqueza do minério na queda das ações.
Impacto na prática
Para quem acompanha a bolsa no Brasil, a divergência entre a alta do Ibovespa e a baixa da VALE3 pode alterar a percepção de risco do papel, sobretudo às vésperas do balanço. Em tese, resultados mais fracos nos preços do minério e pressão de custos — cenário que bancos já projetam — podem reforçar a volatilidade no pregão.
Na China, um dos principais consumidores mundiais de minério no contexto relatado, a combinação de oferta ampliada e sinais mistos na construção e na indústria pode, em hipótese, manter o preço da commodity sob pressão e alimentar revisões de lucro em grandes mineradoras. O efeito não é automático: depende de como a demanda por aço e o ritmo de novos projetos se confirmarem.
Com o mercado dividido entre cautela de curto prazo e aposta na diversificação para o cobre, o próximo teste tende a ser a divulgação dos números de 29 de outubro. Até lá, a leitura que prevalece nas avaliações reunidas pela Exame é de riscos ainda relevantes para resultados, sem consenso sobre se a desvalorização de 2026 já esgotou o espaço de queda.
Fontes: Exame
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