Bolsa

Art Markman defende que líderes não devem se desculpar por falas privadas

Art Markman defende que líderes não devem se desculpar por falas privadas

Na Fast Company, o professor Art Markman argumenta que vazamentos de bastidor quase sempre geram desculpas insatisfatórias — e que, fora casos graves, líderes também têm direito à privacidade.

Ilustração: Ketut Subiyanto (Pexels)

Em texto publicado nesta sexta-feira (24) na Fast Company, o professor Art Markman argumenta que líderes, como qualquer pessoa, têm direito à privacidade — e que, na maior parte dos casos, não deveriam ser obrigados a pedir desculpas por comentários feitos em conversas privadas que vazam para o público.

O ponto de partida é o cenário do “hot mic”: quem ocupa cargo de exposição pública, escreve Markman, tende a ser pego por um deslize de bastidor — uma fala casual, dita fora do microfone oficial — que se torna notícia. O roteiro quase sempre termina, segundo ele, numa desculpa padrão e insatisfatória, em que o protagonista lamenta as palavras e afirma que “não quis dizer aquilo”.

O que aconteceu

Markman — cuja peça foi inspirada, sem nomear o caso, pela experiência recente de um ex-colega — reconhece exceções claras. Observações racistas ou sexistas minam a credibilidade de um líder e podem sinalizar inadequação ao cargo. Também exige resposta séria quem, em conversa privada, revela não ter o melhor interesse da instituição em mente. Fora esses limites, o autor sustenta que a regra deveria ser outra: líderes são humanos e merecem o mesmo espaço privado que o restante da sociedade.

O argumento se apoia no estresse do comando. Dirigir grandes instituições, descreve a Fast Company, significa viver sob demanda constante — pedidos, reclamações, interlocutores que querem algo — e manter a postura de “cara de jogo”. De tempos em tempos, há um embate público mais áspero do que o planejado; em momentos reservados, há queixas. Quando essas queixas são gravadas, nasce o constrangimento.

Para Markman, a maioria dos líderes gosta do trabalho e se dedica às organizações que dirige. As reclamações privadas seriam, com mais frequência, expressão de frustração geral do que ataque a indivíduos específicos — e, mesmo quando há crítica a alguém, costuma haver respeito pelas contribuições dessa pessoa. O problema, no seu raciocínio, é a expectativa de que líderes mantenham capacidade “sobre-humana” de autocontrole o tempo todo.

Antes de celulares com gravação e internet se tornarem rotina, lembra o texto, havia alguma expectativa de momentos privados para baixar a guarda, sobretudo com interlocutores de confiança de longa data. As desculpas públicas após um vazamento, segundo Markman, reforçam duas premissas que ele considera problemáticas: a de que a fala privada revelaria melhor a verdadeira atitude do líder do que suas ações públicas; e a de que o erro já estaria em ter tido aquela conversa reservada.

O que isso pode mudar

Se a tese de Markman ganhar espaço em conselhos e assessorias de crise, o reflexo imediato poderia ser uma mudança de protocolo: menos desculpas automáticas por vazamentos de bastidor e mais distinção entre falas que revelam prejuízo institucional ou discriminação e aquelas que apenas expõem cansaço ou irritação humana. Em tese, isso poderia reduzir o desgaste de lideranças que hoje se veem forçadas a “corrigir” o registro privado sob pressão de redes e manchetes.

Há, contudo, risco simétrico. Sem uma linha clara — e Markman já marca racismo, sexismo e traição ao interesse institucional como casos em que a desculpa (ou até a saída) seria cabível —, a defesa da privacidade pode ser lida como escudo para comentários tóxicos. O equilíbrio, se a discussão avançar, tenderia a depender de critérios públicos e consistentes: o que era privado, o que foi vazado, e se o conteúdo de fato compromete a aptidão para o cargo.

No curto prazo, o texto da Fast Company deve alimentar o debate corporativo sobre cultura de gravação, confiança em reuniões fechadas e o valor (ou o custo) do ritual de pedido de desculpas. A hipótese de Markman é direta: tratar toda fala privada vazada como pecado mortal distorce a leitura do caráter de quem lidera e normaliza a ideia de que líderes não têm direito a um momento fora do palco.

Fontes: Fast Company

Leia mais em: www.mundodosnegocio.com.br