Cipollone do BCE vê euro digital em 2029 se lei sair neste ano

Em entrevista ao Milano Finanza, Piero Cipollone liga o euro digital a soberania de pagamentos, piloto em 2027 e lançamento possível em 2029 se a regulamentação avançar em Bruxelas.
Ilustração: Masood Aslami (Pexels)
O membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu (BCE), Piero Cipollone, afirmou em entrevista ao Milano Finanza que o euro digital pode entrar em circulação já em 2029 se a regulamentação for aprovada ainda neste ano em Bruxelas. A conversa, conduzida por Roberto Sommella em 21 de outubro de 2026 e publicada nesta sexta-feira (24), coloca pagamentos e soberania digital no centro da agenda do Eurosistema.
Cipollone descreve o euro digital como complemento do dinheiro em espécie no ambiente online, onde as notas físicas não circulam, e como alternativa europeia a esquemas de cartão controlados fora do continente. Segundo ele, a dependência de infraestruturas de terceiros compromete a capacidade de garantir o funcionamento suave dos sistemas de pagamento, mandato do banco central.
O que aconteceu
Na entrevista, o dirigente do BCE relatou que, em reunião do Comitê Executivo da Associação Bancária Italiana, o foco principal foi a tokenização, enquanto o euro digital apareceu como atualização sobre o debate legislativo em Bruxelas e os preparativos internos do Eurosistema. Ele enfatizou que pagamentos são infraestrutura estratégica: quando o sistema para, a economia para.
O argumento de urgência apoia-se em números italianos citados por Cipollone. Os pagamentos online passaram de 6% do total em 2019 para 24% em 2024, e ele espera que tenham crescido ainda mais. Duas terças partes desses pagamentos com cartão usam esquemas não europeus. Em grande parte da área do euro, a dependência se estende também às lojas físicas, por falta de alternativas locais comparáveis ao Bancomat italiano.
Para pequenos comerciantes, as taxas podem chegar a quatro vezes as pagas por grandes operadores. O euro digital, com tetos de custo previstos em lei, seria uma alternativa europeia para aumentar a concorrência e aliviar quem tem menos poder de barganha. Em 2027, o Eurosistema lançará um piloto com transações reais feitas por funcionários do BCE e dos bancos centrais nacionais. Trinta e seis operadores de mercado, sete deles italianos, já colaboram nos trabalhos preparatórios; o apelo agora se estende a operadores de comércio eletrônico e de vendas por celular.
Haverá limite de saldo na carteira digital, mas não de pagamentos. Se a compra superar o disponível, o restante poderá sair automaticamente da conta corrente vinculada. O limite, calibrado, visa proteger a estabilidade financeira sem efeitos negativos sobre o sistema bancário, segundo as análises citadas por Cipollone. O instrumento também funcionará offline, aproximando dois dispositivos como num cartão contactless, útil em falta de energia ou conexão fraca, com detalhes da transação restritos a pagador e recebedor.
O acesso virá por aplicativos bancários ou por um aplicativo padronizado do Eurosistema; mesmo neste caso, o relacionamento permanece com o banco do cliente. O BCE não abrirá contas para pessoas. A emissão seguirá a demanda, como o dinheiro em espécie. A infraestrutura será europeia, desenvolvida por provedores do continente. Mais de setenta operadores já exploraram serviços inovadores. Em paralelo, o projeto Pontes, que liquida operações em plataformas de tecnologia de registro distribuído com dinheiro de banco central, entrou em operação em 21 de setembro de 2026.
O que isso pode mudar
Se a regulamentação for adotada até o fim do ano, o Conselho Governamental do BCE poderia emitir a decisão formal de emissão, e o mercado ganharia o conjunto de regras técnicas para adaptar sistemas. Nesse cenário, o lançamento em 2029 deixaria de ser horizonte remoto e passaria a calendário operacional para bancos, comerciantes e operadores de pagamento.
Na leitura de Cipollone, o euro digital não substituiria bancos nem o dinheiro em espécie, mas coexistiria com ambos, ampliando escolha e resiliência. A hipótese é que a concorrência nas taxas e a aceitação pan-europeia reduzam a dependência de esquemas externos e reforcem o que ele chama de soberania de escolha, sem excluir terceiros. Completar o mercado de capitais europeu e integrar bancos e infraestruturas estratégicas, inclusive via Pontes e o projeto complementar Appia, poderia ainda redirecionar poupança europeia para financiar empresas do continente.
Fontes: ECB Press
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