BCE aponta liquidação T+1 em outubro de 2027 e acelera tokenização na Europa

Piero Cipollone diz que a Europa passa ao T+1 em 11 de outubro de 2027 e liga a mudança a Pontes, Appia e modernização do T2S.
Ilustração: Masood Aslami (Pexels)
Em menos de um ano, a Europa encurtará o ciclo de liquidação de valores mobiliários. Piero Cipollone, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu (BCE), afirmou nesta quarta-feira (29) em Frankfurt que, em 11 de outubro de 2027, o bloco passa do regime T+2 para o T+1: da negociação à entrega do título e ao pagamento restará um dia, e não mais dois.
O discurso, em evento do Comitê da Indústria da União Europeia sobre T+1, trata a mudança como peça de uma reforma mais ampla da infraestrutura financeira europeia, com eficiência, resiliência e competitividade dos mercados no centro.
O que aconteceu
Segundo Cipollone, o T+1 não é só calendário. Ciclos mais curtos podem reduzir risco de mercado e de contraparte. Na Europa, a transição força revisão dos processos pós-negociação: mais padronização, automação e inovação, porque ineficiências toleráveis no T+2 ficam difíceis de sustentar no T+1. O BCE, com a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados e a Comissão Europeia, apoia as preparações do mercado.
O Eurosistema opera o TARGET2-Securities (T2S), plataforma de liquidação de títulos em dinheiro de banco central. Cipollone lembrou que o T2S já liquida volumes relevantes em T+1 e até em T+0. Ainda assim, há ajustes: mudanças no processo de liquidação noturna estão planejadas para junho de 2027, antes da migração de mercado em outubro daquele ano. Os próximos meses, disse, serão críticos para implementação e testes.
Paralelamente, o Eurosistema avança na tokenização e na tecnologia de registro distribuído (distributed ledger technology, ou DLT). Desde 30 de março, aceita como garantia elegível ativos negociáveis emitidos em depositários centrais de valores mobiliários com DLT. Avalia se, como e sob quais critérios ativos baseados em DLT fora dos sistemas de liquidação hoje elegíveis poderiam entrar no framework de colateral.
Desde 21 de setembro, a iniciativa Pontes permite liquidar transações atacadistas em ativos tokenizados em dinheiro de banco central, ligando plataformas DLT de mercado aos serviços TARGET. O Eurosistema pretende ampliar as funções iniciais: horário de operação bem mais longo até meados de 2027 e disponibilidade 24 horas, sete dias por semana, o ano todo, em 2028. Também planeja oferecer finalidade imediata de liquidação na plataforma DLT do Eurosistema já no próximo ano.
A iniciativa Appia olha mais adiante. Até 2028, pretende entregar um plano com achados, recomendações e princípios para um ecossistema europeu tokenizado integrado, com dinheiro de banco central como âncora. Ontem (28), o Eurosistema publicou relatório da consulta pública sobre o roteiro da Appia: apoio amplo do mercado e disposição de contribuir, base para parceria público-privada. Cipollone foi explícito: o T2S não desaparece cedo; tecnologias e infraestruturas devem coexistir, sem recriar fragmentação em formato digital.
O que isso pode mudar
Se a migração a T+1 e os projetos Pontes e Appia avançarem no ritmo previsto, a Europa pode aproximar liquidação pós-negociação e finanças tokenizadas sob padrões comuns, o que tende a facilitar fluxos de capital transfronteiriços e a integração dos mercados de capitais. O risco, na leitura de Cipollone, é a inovação criar novos silos tecnológicos. O sucesso, portanto, dependeria de cooperação público-privada nos testes até outubro de 2027 e de convivência segura entre T2S e plataformas tokenizadas.
Fontes: ECB Press
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