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BCE na COP17 trata natureza como investimento em resiliência econômica

BCE na COP17 trata natureza como investimento em resiliência econômica

Frank Elderson vincula degradação ambiental a riscos de crédito, inflação e estabilidade financeira e pede escala inédita de capital para biodiversidade.

Ilustração: Masood Aslami (Pexels)

Frank Elderson, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu (BCE) e vice-presidente do Conselho de Supervisão, abriu nesta segunda-feira (26) o Dia das Finanças e da Biodiversidade da COP17, em Yerevan, com um alerta: proteger a natureza deixou de ser agenda paralela e passou a ser condição para resiliência econômica e prosperidade.

Quatro anos após o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, o progresso ainda é limitado enquanto a degradação avança. Sem investimento não há transição, afirmou o dirigente, ao insistir que restaurar o capital natural é investimento, não mera despesa.

O que aconteceu

No discurso “Taking action for nature – investing in economic resilience and prosperity”, Elderson situou o capital natural ao lado de estradas e redes elétricas como infraestrutura crítica. Segundo análise do BCE citada por ele, 72% das empresas da área do euro dependem de ao menos um serviço ecossistêmico, e 75% do crédito corporativo da região vai para companhias altamente dependentes desses serviços. Estimativa do Banco Mundial referida no texto aponta que até metade do PIB mundial se apoia na biodiversidade e nos serviços da natureza.

A água ocupou o centro da argumentação. Secas intensificadas pelo calor neste verão europeu levaram rios como Reno, Loire, Pó e Danúbio a níveis excepcionalmente baixos, com paralisação de usinas nucleares, impacto na hidreletricidade e interrupções em cadeias de suprimento. Pesquisa envolvendo o BCE, a London School of Economics e a Universidade de Oxford indica que uma seca de probabilidade 1 em 100 anos poderia colocar em risco até 24% da produção econômica da área do euro. Quase 12% dessa produção enfrenta riscos por proteção insuficiente contra inundações.

Há ainda o custo da água poluída. Elderson citou estimativas da Comissão Europeia sobre substâncias PFAS (“químicos eternos”): se a poluição atual persistir até 2050, o custo social poderia chegar a 440 bilhões de euros; só o tratamento da água contaminada poderia superar 1 trilhão de euros. Clima e natureza formam um nexo: a Europa é o continente que mais esquenta, com 0,56 grau Celsius por década desde meados dos anos 1990 — mais que o dobro da média global. Sete das nove fronteiras planetárias já teriam sido ultrapassadas.

No front financeiro, o Network for Greening the Financial System (NGFS) reúne 152 bancos centrais e supervisores em mais de 95 países, além de 24 observadores. No BCE, riscos de natureza já entram na supervisão e na avaliação de preços: altas de alimentos após ondas de calor e secas são vistas como risco altista para a inflação. Mais de 90% dos bancos supervisionados se consideram materialmente expostos a riscos climáticos e de natureza, embora a gestão destes últimos seja menos madura.

Os números reforçam a urgência: 75% dos ecossistemas terrestres e 66% dos oceânicos foram danificados ou modificados; a humanidade consome recursos cerca de 1,7 vez mais rápido do que a regeneração. Estimativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) citada no discurso aponta que o investimento anual em soluções baseadas na natureza precisa chegar a 571 bilhões de dólares até 2030, ante cerca de 220 bilhões em 2023 — mais de 2,5 vezes o patamar atual.

O que isso pode mudar

Se a mensagem de Elderson se traduzir em ação, bancos da área do euro podem acelerar a gestão de riscos de natureza na solidez prudencial, enquanto a política monetária tende a manter esses fatores no radar da estabilidade de preços. A COP17, na leitura do dirigente, precisaria mobilizar capital público e privado em escala inédita para tornar oportunidades “nature-positive” bancáveis e financiar bens públicos sem receita direta.

Caso o atraso continue, o risco seria pagar depois via produção interrompida, adaptação e perda de capacidade econômica — com a natureza impondo o ajuste. Em cenário de fragmentação geopolítica, a cooperação via NGFS, Comitê de Basileia, Conselho de Estabilidade Financeira e Fundo Monetário Internacional (FMI) apareceria como peça ainda mais indispensável para transformar metas de Kunming-Montreal em investimento concreto.

Fontes: ECB Press

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