Bolsa

BIS publica discurso sobre pagamentos cross-border em cenário geopolítico

BIS publica discurso sobre pagamentos cross-border em cenário geopolítico

Vice-governadora do Banco da Grécia defende equilíbrio entre modernizar sistemas existentes e inovar com DLT, tokenização e cooperação internacional.

Ilustração: DΛVΞ GΛRCIΛ (Pexels)

O Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) publicou a intervenção de Christina Papaconstantinou, vice-governadora do Banco da Grécia, sobre como aprimorar pagamentos cross-border em um cenário geopolítico em mudança. O texto reproduz a participação dela em painel na 10ª Conferência de Bancos Centrais do Mediterrâneo, organizada pelo Banco da Espanha em Roda de Berà, em 2 de outubro de 2026.

No centro do argumento está o equilíbrio entre modernizar arranjos já existentes e adotar novas tecnologias, sem perder de vista estabilidade financeira, soberania monetária, concorrência, inclusão e segurança.

O que aconteceu

Papaconstantinou afirma que a escolha dos bancos centrais entre aprimorar frameworks vigentes e desenvolver novas infraestruturas deve ser guiada pelas necessidades dos usuários, pela natureza das ineficiências identificadas e pelos benefícios esperados de cada solução, considerando também restrições de recursos. Em alguns casos, aproveitar arranjos existentes pode gerar ganhos relevantes e evitar custos e riscos de criar estruturas do zero. Ela cita o desenvolvimento do TIPS como exemplo de reformas pontuais em infraestruturas já operacionais capazes de melhorar serviços de pagamento cross-border.

Em outros casos, sistemas legados chegam ao limite do que reformas incrementais conseguem entregar. Aí, soluções novas podem ser necessárias para enfrentar as limitações dos arranjos atuais, eventualmente facilitadas por avanços tecnológicos. A participação ativa dos bancos centrais, argumenta, ajuda a garantir que objetivos de política pública estejam refletidos nas infraestruturas que surgem.

Na perspectiva do Eurosistema, o objetivo é perseguir a inovação de modo a preservar eficiência, resiliência, autonomia estratégica e o papel de política pública do dinheiro do banco central. O engajamento com novas soluções permitiria ganhar experiência prática, contribuir para padrões internacionais e manter “opcionalidade estratégica” diante da evolução dos mercados.

A iniciativa Appia do Eurosistema ilustra essa linha. Segundo a intervenção, a Appia explora como a tecnologia de registro distribuído (distributed ledger technology, ou DLT), a tokenização e o dinheiro do banco central podem operar em um futuro ecossistema financeiro europeu. A ideia é identificar onde novas soluções atacam ineficiências estruturais sem abandonar funções de política pública hoje desempenhadas pelas infraestruturas dos bancos centrais. Em vez de herdar desenhos feitos fora, a Europa buscaria liderar e participar ativamente da definição — com ênfase em interoperabilidade, padrões comuns e integração, e não em isolamento.

Sobre cooperação, Papaconstantinou destaca que fóruns como a conferência oferecem espaço neutro para diálogo e consenso: construir confiança, promover padrões comuns e manter a inovação ancorada na cooperação. Redes de pagamento tenderiam a ser mais eficientes e resilientes quando assentadas em regras compartilhadas, formatos de mensagens e princípios de governança. A interoperabilidade, na leitura dela, funciona como salvaguarda estratégica contra a fragmentação.

Ela aponta o progresso da Roadmap do G20, liderada pelo Conselho de Estabilidade Financeira (Financial Stability Board) e pelo Comitê de Pagamentos e Infraestruturas de Mercado (Committee on Payments and Market Infrastructures, ou CPMI), como evidência de que melhorias concretas são possíveis quando autoridades atuam juntas em prioridades comuns — interoperabilidade, padrões de dados e alinhamento regulatório. Manter esse espírito cooperativo seria importante quando tensões geopolíticas ameaçam criar novas fricções e fragmentação.

O que isso pode mudar

Se a linha defendida na intervenção ganhar tração, bancos centrais podem acelerar a combinação de upgrades em sistemas já consolidados — no espírito do TIPS — com experimentos controlados em DLT e tokenização, como na Appia, em vez de apostar só em uma das vias. Isso poderia reduzir o risco de redes regionais isoladas e reforçar padrões compartilhados de mensageria e governança.

Novas tecnologias, incluindo pagamentos instantâneos, tokenização e, potencialmente, moedas digitais de bancos centrais, oferecem oportunidades para melhorar transações cross-border, segundo a própria interventora. O alcance em escala, porém, dependeria de confiança nos marcos legais, operacionais e de governança. Em um ambiente de risco geopolítico crescente, a hipótese implícita no discurso é que cooperação e interoperabilidade podem limitar a fragmentação dos pagamentos internacionais — enquanto o isolamento técnico e institucional tenderia a amplificar fricções e dependências externas.

Fontes: BIS Speeches

Leia mais em: www.mundodosnegocio.com.br