Bloomberg Markets vê nos perpétuos o uso da blockchain que pode mudar os mercados

Bloomberg Markets vê nos perpétuos o uso da blockchain que pode mudar os mercados

Newsletter da Bloomberg Markets questiona a tese clássica da blockchain e aponta os contratos futuros perpétuos, os perps, como o mecanismo que pode reordenar a negociação de ativos.

Foto: Roger Brown (Pexels)

A newsletter da Bloomberg Markets desta terça-feira (20) reabre um debate que parecia encerrado: a cadeia de blocos, ou blockchain, talvez não esteja entregando o que o mercado projetou há anos, e o ponto cego pode ser outro. Em vez de insistir na narrativa de tokenização ampla ou de uma substituição abrupta da finança tradicional, o texto coloca no centro os contratos futuros perpétuos, conhecidos como perps, e pergunta se essa peça, nativa do universo cripto, é o que de fato pode alterar a estrutura dos mercados.

O ângulo resume-se na provocação do título e no fio condutor do boletim: por que os perps podem mudar tudo. A leitura desloca o foco da tecnologia em si para o desenho do produto financeiro que mais liquidou e se espalhou nas plataformas digitais.

O que aconteceu

Durante boa parte da última década, a conversa pública sobre blockchain concentrou-se em promessas amplas — registros imutáveis, ativos tokenizados em massa e uma nova arquitetura de confiança para bancos, bolsas e contratos. A Bloomberg Markets sugere que essa história pode ter sido mal calibrada. O que cresceu de forma mais concreta, segundo o enquadramento do boletim, foi um instrumento de derivativos sem data de vencimento, ancorado por taxas de financiamento que tentam manter o contrato alinhado ao preço à vista.

Os perps nasceram e se consolidaram no comércio de criptomoedas. Diferente de um futuro tradicional, não exigem rolagem periódica nem liquidação em data fixa: a posição pode permanecer aberta enquanto houver margem e contraparte. Com o tempo, a mesma lógica passou a ser aplicada a exposições sintéticas ligadas a ações, índices, commodities e pares cambiais em venues cripto, em operação contínua, fora do horário convencional das bolsas.

É nesse deslocamento que a newsletter encaixa a revisão de tese. Não se trata, no relato, de abandonar a blockchain como infraestrutura, e sim de reconhecer que o uso com tração de mercado pode ser a criação de uma estrutura de negociação perpétua e global, e não apenas a digitalização de ativos já listados em praças reguladas. Em outras palavras: a inovação relevante pode estar menos no “ledger” genérico e mais no contrato que permite apostar long ou short, com alavancagem, 24 horas por dia, sobre um universo crescente de riscos.

O boletim dialoga com um movimento já acompanhado pela própria Bloomberg em reportagens recentes sobre volume de perps atrelados a ativos tradicionais em exchanges digitais — ações, commodities e índices ocupando fatia crescente do fluxo. A edição de hoje eleva isso a uma hipótese de reinterpretação: se o mercado “errou” sobre a blockchain, o erro foi olhar para o manifesto e não para o produto que de fato escalou.

O que isso pode mudar

Se a leitura da Bloomberg Markets se confirmar na prática, a convergência entre cripto e finança tradicional pode ocorrer ao contrário do que muitos scripts previsíveis descreviam. Em vez de a cripto apenas “amadurecer” até parecer Wall Street, parte da exposição a ações, ouro, câmbio e índices pode migrar para trilhos e horários que a cripto já normalizou — sessões sem fechamento e acesso global com fricção menor de rolagem.

Isso poderia pressionar bolsas e intermediários a responderem com mais continuidade de preço, produtos mais próximos do formato perpétuo ou integrações que reduzam a distância entre o livro tradicional e o on-chain. Também pode alterar onde ocorre a descoberta de preço em janelas em que mercados convencionais estão fechados, um tema que já aparece em episódios de volatilidade fora do pregão.

Há ressalvas que o próprio debate de mercado costuma ressaltar e que qualquer extrapolação precisa carregar: alavancagem elevada concentra risco de liquidação; a taxa de financiamento não substitui, por si só, a disciplina de um vencimento e de uma liquidação clássica; e a arquitetura regulatória ainda define o que pode ser oferecido a investidores em cada jurisdição. Nada disso anula a hipótese central do boletim — apenas delimita o ritmo e o formato da eventual mudança.

Para gestores, corretoras e reguladores, o sinal da Bloomberg Markets é menos um veredito técnico sobre a blockchain e mais um alerta de alocação de atenção: o instrumento que pode reordenar fluxos e liquidez nos próximos ciclos pode ser o perp, e não o white paper que dominou a primeira onda de entusiasmo.

Fontes: Bloomberg Markets — Maybe We Were Wrong About Blockchain

Leia mais em: mundodosnegocio.com.br