China mantém juros de empréstimo estáveis e estuda reforma da política monetária

PBoC mantém LPR em 3% e 3,5% pelo 17º mês e estuda tornar a taxa overnight a principal referência de política monetária.
Foto: ArtHouse Studio (Pexels)
Os grandes bancos chineses mantiveram inalteradas, nesta terça-feira (20), as principais taxas de empréstimo de referência, nos mesmos patamares desde maio de 2025, segundo o Valor Econômico, com base na Dow Jones Newswires. A decisão ocorre em Pequim enquanto o Banco do Povo da China (PBoC) avalia reformas na política monetária e as autoridades dão à expansão fiscal papel de maior destaque no estímulo ao crescimento.
A taxa de empréstimo prime (LPR) de um ano ficou em 3,0% e a de cinco anos ou mais, em 3,5%, pelo 17º mês consecutivo, conforme a Reuters. Ambos os índices tiveram o último corte em maio de 2025. A LPR de cinco anos é a principal referência para financiamentos imobiliários no país.
Na véspera, o presidente do PBoC, Pan Gongsheng, disse em fórum financeiro em Pequim que a autoridade estuda, no momento adequado, tornar a taxa de recompra reversa overnight a principal taxa de política, no lugar da taxa de sete dias usada como referência desde 2024.
O que aconteceu
A manutenção da LPR era amplamente esperada após o crescimento do terceiro trimestre ter avançado 4,5% na comparação anual — acima das previsões e alinhado à meta anual de 4,5% a 5% —, o que, segundo a Reuters, aliviou a pressão por estímulo monetário mais agressivo no curto prazo. Desde 2024, a taxa de recompra reversa de sete dias, hoje em 1,40%, funciona como principal taxa de política do PBoC; com ela estável, havia pouco espaço para mover a LPR.
Ainda assim, a LPR continua a balizar a maior parte dos empréstimos bancários. Pan Gongsheng afirmou, segundo leitura do banco central reportada pela Reuters, que a taxa overnight interbancária “já se tornou, na prática, a taxa-alvo” da política monetária do PBoC, por refletir a liquidez de curto prazo com maior estabilidade. A mudança, disse ele, tornaria o controle de juros mais preciso e aproximaria o marco chinês do de pares como o Federal Reserve.
Operações overnight de recompra reversa entraram no instrumental do PBoC no fim de junho e respondem por mais de 80% do volume de recompras no mercado interbancário. A taxa média overnight estava perto de mínima de cinco meses, em torno de 1,25%. O analista Wang Qing, da Golden Credit Rating International, disse à Reuters que a troca não equivale a um corte de juros.
O PBoC também prepara orientação para diversificar as bases de precificação de crédito: empresas com maior capacidade financeira poderiam escolher a taxa overnight ou a LPR para empréstimos de taxa flutuante, enquanto a LPR seguiria como referência para pequenas empresas e pessoas físicas. A autoridade anunciou ainda intenção de ampliar o acesso à facilidade permanente de empréstimo e de criar instrumento de liquidez para instituições não bancárias. Após o anúncio, o rendimento do título soberano de 30 anos caiu mais de um ponto-base. Pan reiterou que a China não pretende obter vantagem comercial via desvalorização cambial.
Impacto na prática
Para famílias e empresas na China, a LPR estável sugere, por ora, manutenção do custo de referência de novos empréstimos e hipotecas atrelados a esses índices, sem sinal imediato de barateamento adicional do crédito. Em tese, se a reforma avançar, corporações maiores poderiam negociar índices distintos, enquanto tomadores menores continuariam mais ligados à LPR, no desenho descrito por Pan.
Para a economia chinesa, o quadro das fontes aponta estímulo mais apoiado na política fiscal do que em novos cortes de juros de referência. Em hipótese, o PIB de 4,5% no terceiro trimestre pode reduzir a urgência de afrouxamento monetário agressivo no curto prazo — sem garantir que novos estímulos não venham se a demanda interna enfraquecer. Parceiros comerciais sensíveis à demanda chinesa podem, em tese, acompanhar se a ausência de corte altera expectativas de crescimento, mas o nível final da taxa overnight e o ritmo da reforma ainda não foram definidos.
O próximo sinal a observar é o momento e o patamar em que a taxa overnight eventualmente se tornar a referência oficial — passo que, se confirmado, pode redesenhar a transmissão da liquidez de curto prazo na segunda maior economia do mundo, sem alterar, por si só, as taxas que tomadores pagam hoje.
Fontes: Valor Econômico; Reuters via Yahoo Finance; Xinhua
Leia mais em: mundodosnegocio.com.br