Cipollone do BCE liga Pontes e Appia a oportunidades para bancos na tokenização

Cipollone do BCE liga Pontes e Appia a oportunidades para bancos na tokenização

Em discurso à Associação Bancária Italiana, Piero Cipollone diz que Pontes já liquida DLT em moeda do BCE e que Appia abre codesign com o mercado até 2028.

Foto: Masood Aslami (Pexels)

O membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu (BCE), Piero Cipollone, afirmou nesta quarta-feira (21) que a tokenização de ativos financeiros deixa a fase experimental e entra em adoção inicial — e que os bancos europeus têm espaço concreto para participar. Em apresentação à Associação Bancária Italiana, ele destacou duas iniciativas do Eurosistema: Pontes, já em operação, e Appia, ainda em desenho conjunto com o mercado.

Segundo Cipollone, a liquidação em moeda do banco central em euro já está disponível para operações baseadas em tecnologia de registro distribuído (DLT, na sigla em inglês). O discurso, intitulado “Pontes and Appia: unlocking opportunities for banks”, foi publicado pelo BCE em 21 de outubro de 2026.

O que aconteceu

Desde o lançamento de Pontes, em 21 de setembro de 2026, transações em DLT podem ser liquidadas em moeda do banco central. Em paralelo, desde março de 2026, ativos baseados em DLT emitidos em depositárias centrais de valores mobiliários (CSDs) podem ser mobilizados como colateral elegível nas operações de crédito do Eurosistema.

Cipollone descreveu a tokenização como um movimento que cobre toda a cadeia financeira — emissão, negociação, pós-negociação, serviços de ativos e colateral. Entre os benefícios citados estão operação contínua, automação por contratos inteligentes, troca síncrona de ativos e caixa, redução de reconciliações, custos menores de emissão, acesso mais amplo de pequenas e médias empresas aos mercados de capitais, propriedade fracionada e entrega contra pagamento atômica, com menor risco de contraparte e ciclos mais curtos.

O dirigente também apontou interesse crescente de emissores soberanos e supranacionais em emissões tokenizadas e citou o comunicado do Eurogrupo+ sobre finanças digitais, de 9 de julho de 2026. Infraestruturas de mercado europeias, segundo ele, já adaptam serviços para títulos emitidos em DLT, em convivência com a infraestrutura tradicional. A tendência não se limita à Europa: ele mencionou alívio regulatório de funcionários da Securities and Exchange Commission (SEC) dos Estados Unidos, de dezembro de 2025, que permite à Depository Trust & Clearing Corporation (DTCC) tokenizar títulos existentes por três anos.

O Eurosistema, argumentou Cipollone, atua como catalisador para inovar em escala. Suas funções centrais seriam oferecer um ativo de liquidação sem risco em finanças atacadistas tokenizadas, aceitar ativos tokenizados como colateral nas operações de política monetária e fomentar um ecossistema integrado, com autonomia estratégica europeia e padrões comuns — em linha com a união de poupança e investimentos (SIU).

Pontes já está ao vivo; a experiência dos usuários deve orientar o desenvolvimento. Appia, por sua vez, é o canal de codesign: grupo de contato, padrões europeus para o ecossistema tokenizado, consultas públicas e sessões de foco. A partir de 2027, participantes de mercado serão convidados a contribuir para o desenho prático do blueprint da Appia, com publicação prevista até 2028. No Regime-piloto de DLT da União Europeia, infraestruturas podem conectar-se a Pontes para liquidar em moeda do banco central, e bancos autorizados a prestar serviços de investimento figuram entre os operadores possíveis em várias modalidades do regime.

O que isso pode mudar

Se bancos, emissores e infraestruturas adotarem Pontes e avançarem no codesign da Appia, a liquidação em moeda do banco central pode se tornar o âncora monetário padrão das operações tokenizadas no atacado europeu. Isso poderia reduzir fragmentação, encurtar ciclos de liquidação e melhorar a mobilidade de colateral — inclusive intradía, com buffers de liquidez potencialmente menores.

Na hipótese de maior participação bancária no Regime-piloto e nas frentes públicas-privadas descritas por Cipollone, o setor poderia capturar parte dos ganhos de eficiência da tokenização sem abrir mão do lastro em moeda central. O risco inverso, apontado no próprio diagnóstico do BCE, é a tokenização criar uma nova camada de fragmentação caso faltem padrões comuns e redes interoperáveis. O sucesso, portanto, dependeria menos do anúncio e mais do uso efetivo de Pontes e da construção conjunta da Appia até 2028.

Fontes: ECB Press – Piero Cipollone: Pontes and Appia: unlocking opportunities for banks (PDF).

Fontes: ECB Press

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