Makhlouf defende governança bancária forte na UE diante de IA e riscos

Makhlouf defende governança bancária forte na UE diante de IA e riscos

Em Dublin, o governador do Banco Central da Irlanda ligou lições da crise financeira a IA, ciberameaças e responsabilidade clara nos conselhos bancários europeus.

Foto: Yaroslav Shuraev (Pexels)

O governador do Banco Central da Irlanda, Gabriel Makhlouf, afirmou em Dublin que a forma como os bancos são dirigidos, como as decisões são tomadas e questionadas e se quem assume responsabilidades tem julgamento e expertise adequados vai muito além da sala de conselho. Famílias e empresas dependem dessas instituições para guardar dinheiro, obter crédito e sustentar o dia a dia.

As declarações foram feitas em 9 de outubro de 2026, na sede do banco central irlandês, no lançamento do livro The Evolution of Bank Governance in the EU, organizado pelas professoras Blanaid Clarke e Christina Livada. O discurso foi divulgado pelo Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements, BIS).

O que aconteceu

Makhlouf celebrou a publicação, que reúne academia, setor financeiro e comunidade regulatória. O volume, disse ele, situa o marco europeu de governança bancária em perspectiva histórica e examina desafios recentes, inclusive a inteligência artificial (IA).

Segundo o governador, a crise financeira mostrou o dano possível quando os conselhos não compreendem os riscos assumidos pelas instituições ou quando a administração não é suficientemente desafiada. Essas lições seguem relevantes mesmo com a mudança das circunstâncias enfrentadas pelos bancos.

O painel tratou de governança em um mundo em transformação. Makhlouf citou a ênfase de Mary Elizabeth McMunn de que se aprende muito sobre governança quando as condições se tornam difíceis: a informação precisa chegar rápido às pessoas certas, as preocupações precisam ser ouvidas e os conselhos precisam tomar decisões difíceis enquanto ainda há tempo de agir. Isso exige expertise e independência de pensamento, apoiadas por uma cultura em que as pessoas se sintam capazes de questionar pressupostos — motivo pelo qual o governador se disse firme defensor da diversidade e da inclusão.

Essa lógica vale para riscos financeiros conhecidos e para desafios operacionais como ameaças cibernéticas, interrupção de serviços críticos e dependência de fornecedores externos. A IA acrescenta outra dimensão: oferece oportunidades para melhorar serviços e o trabalho dos bancos, mas os conselhos precisam compreender o bastante para avaliar essas oportunidades, reconhecer limites da tecnologia e garantir responsabilidade clara pelas decisões.

Há ligação com o debate europeu e com o trabalho do banco central irlandês sobre regular e supervisionar bem. O objetivo é tornar a regulação mais clara, eliminar duplicações e enfrentar complexidade desnecessária. Uma governança forte apoia essa ambição. A análise do livro sobre a Diretiva de Requisitos de Capital (Capital Requirements Directive) oferece, na visão de Makhlouf, base útil para pensar como o marco europeu pode sustentar esses resultados, inclusive diante de riscos climáticos e ambientais.

Ele lembrou que todos os marcos dependem das pessoas que os colocam em prática. Os regimes de idoneidade e probidade (fitness and probity) e de responsabilização individual tratam da aptidão, das responsabilidades e dos padrões esperados. Após a revisão de Andrea Enria, o banco trabalhou para tornar esses processos mais claros, justos e consistentes. Dentro das instituições, responsabilidades claras devem ajudar a assumir decisões e escalar preocupações; os conselhos precisam questionar a direção tomada e olhar além das pressões imediatas.

O que isso pode mudar

Se a mensagem de Makhlouf encontrar eco entre supervisores e conselhos na União Europeia, a governança bancária poderia ganhar peso renovado não só no desenho formal de regras, mas na qualidade do questionamento interno e na clareza sobre quem responde por decisões em ambientes mais digitais e operacionais.

O alinhamento entre idoneidade, responsabilização individual e uma cultura que permita desafiar pressupostos poderia, em tese, reduzir falhas de julgamento em momentos de tensão — cenário em que a governança é mais testada. A expectativa de que os conselhos entendam limites e oportunidades da IA sugere que instituições e supervisão talvez tenham de elevar a competência técnica nas mesas de decisão. Nada disso está garantido: depende de como o setor traduzirá o debate do livro em práticas nos próximos ciclos regulatórios.

Fontes: BIS Speeches — The evolution of bank governance in the EU (Gabriel Makhlouf).

Fontes: BIS Speeches

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