Conselhos miram experiência enquanto poucos diretores declaram expertise em IA

Fast Company alerta que nomeações de ex-CEOs e aposentados crescem em 2026 enquanto a maioria do S&P 500 cita IA como risco e quase ninguém no board declara expertise.
Ilustração: Yaroslav Shuraev (Pexels)
Em meio a turbulência e incerteza, conselhos de administração que escolhem novos diretores estão privilegiando quem já “viu de tudo”. Em artigo publicado nesta segunda-feira (26) na Fast Company, o autor Faisal Hoque compara esse movimento à Linha Maginot e pergunta se a governança da inteligência artificial (IA) não está se preparando para a guerra errada.
Segundo a Fast Company, em 2026 atuais e ex-CEOs responderam por 37% das nomeações — a maior fatia desde 2012 — e executivos aposentados representaram 54% dos novos diretores. Ao mesmo tempo, mais de quatro em cinco empresas do S&P 500 passam a divulgar a IA como risco, enquanto menos de 3% dos conselheiros declaram expertise na área.
O que aconteceu
Hoque abre com a analogia histórica da Linha Maginot, fortificação de mais de 320 quilômetros erguida pela França nos anos 1930 para um cenário de guerra de posições. Em maio de 1940, a ofensiva alemã de blitzkrieg contornou a barreira em poucos dias. O paralelismo, no texto, é com conselhos que enxergam a ameaça da IA, mas continuam a montar equipes para crises do passado.
A lógica da preferência por experiência, reconhece o autor, é compreensível em tempos difíceis: apostar em quem já atravessou ciclos adversos. Ele lembra, citando Oscar Wilde, que experiência é o nome que se dá aos erros já cometidos — e que um CEO que viveu uma recessão já pagou lições que o restante do colegiado não precisa aprender na prática.
O ponto de tensão, porém, está no descompasso numérico. A Fast Company registra que os conselhos “veem de onde vem a próxima ameaça” e, ainda assim, “estão se equipando para a última”. Daí o risco, na leitura de Hoque, de construir uma nova Linha Maginot em vez de enfrentar o perigo presente de frente.
O subtítulo do artigo indica que três perguntas podem ajudar os colegiados a reequilibrar a composição para a IA sem descartar a experiência de que ainda dependem. O texto disponível destaca o diagnóstico e o valor da vivência corporativa; o detalhamento completo das perguntas permanece no corpo integral da reportagem da Fast Company.
O que isso pode mudar
Se a tendência de nomear sobretudo ex-CEOs e aposentados se mantiver sem ganho paralelo de competência em IA, é possível que a supervisão fique sólida para recessões e reestruturações clássicas, mas frágil diante de riscos que atravessam contratação, preços, crédito e operação. Nessa hipótese, o gap entre risco declarado e expertise no colegiado tenderia a se ampliar.
Outro desdobramento plausível é pressão por rebalanceamento gradual: manter a experiência de quem já atravessou crises e, ao mesmo tempo, elevar a capacidade do board de questionar sistemas de IA, responsabilidades e limites de uso. Sem esse ajuste, a governança poderia parecer robusta no papel e vulnerável na prática — exatamente o alerta que a analogia da Maginot pretende provocar.
Para investidores e comitês de risco, o sinal da Fast Company sugere olhar além do currículo “clássico” dos novos diretores e perguntar se o colegiado consegue, de fato, acompanhar a exposição à IA que a própria empresa já admite nos documentos. O que está em jogo, na leitura do artigo, não é abandonar a experiência, e sim evitar que ela se torne a única linha de defesa contra um risco que já está no radar.
Fontes: Fast Company
Leia mais em: www.mundodosnegocio.com.br
Redação e publicidade
Tem um fato pra sugerir à redação, ou quer aparecer no Mundo dos Negócios com conteúdo patrocinado? São caminhos diferentes — e transparentes.