Corte do PMA agrava fome entre deslocados palestinos na Cisjordânia

PMA reduz pela metade a ajuda alimentar na Cisjordânia; deslocados em Tulkarem e no sul relatam fome e cortes que já afetam cerca de 900 mil pessoas em insegurança alimentar.
Ilustração: Ahmed akacha (Pexels)
Na Cisjordânia ocupada, famílias já deslocadas por operações militares israelenses enfrentam uma segunda crise: a redução pela metade da ajuda alimentar do Programa Mundial de Alimentos (PMA), anunciada em setembro sob “restrições críticas de financiamento”. A Al Jazeera, em 24 de outubro de 2026, a partir de Tulkarem, relata o impacto sobre viúvas, famílias abrigadas em escolas e comunidades rurais do sul.
Segundo o PMA, cerca de 900 mil pessoas na Cisjordânia sofrem insegurança alimentar, e a necessidade de comida mais do que dobrou desde 2023. A agência ainda atende 200 mil palestinos com transferências, vales, alimentos — volume insuficiente, admitiu, para todas as famílias elegíveis.
O que aconteceu
Fawza Awad, viúva de 75 anos, foi deslocada do campo de Tulkarem em janeiro de 2025, quando uma operação militar israelense atingiu campos no norte da Cisjordânia e forçou o deslocamento de dezenas de milhares de palestinos. Passou a viver em parte de uma casa inacabada da filha, com o filho, a nora e o neto. Dependia de assistência limitada do PMA e, segundo o relato, não recebe ajuda há cinco meses.
Em setembro, o PMA cortou 50% dos beneficiários de ajuda alimentar na Cisjordânia ocupada, citando queda de recursos de doadores. Confirmou à Al Jazeera que algumas famílias deixaram de ser atendidas antes do anúncio. Fawza diz não haver retorno: o Exército israelense teria demolido sua moradia e aberto uma estrada para veículos militares. Um filho está detido desde 2024; os demais, que trabalhavam em Israel, estão desempregados. Ela relata asma e hipertensão, com remédios de ao menos 200 shekels (cerca de US$ 64) por mês, sem cobertura.
Na escola al-Muwahhad, em Thannabeh, Tulkarem, mais de mil deslocados dos campos de Tulkarem e Nur Shams se abrigam. Rabab Qasim, 47, o marido Talib Abu Sarriya, 72, e os três filhos ocupam há dois anos um cômodo de cerca de 30 metros quadrados, sem renda. Há três meses não receberam assistência. Talib conta que muitas vezes não há pão e que dormem com fome.
Análise do PMA indica que 76% dos lares palestinos na Cisjordânia tiveram queda significativa de renda; 12% da população tem consumo alimentar precário e um terço dos domicílios não consegue arcar com uma dieta saudável. Áreas rurais e o sul foram as mais atingidas. Said al-Amour, 61, de Masafer Yatta, ao sul de Hebron, diz que sua família de 14 pessoas não recebe ajuda há sete meses. Em abril de 2025, segundo ele, foi baleado por um colono e perdeu uma perna; o tratamento mensal custaria ao menos 1.200 shekels (cerca de US$ 385).
O economista Ubai Aboudi situa o corte numa crise mais ampla. Desde maio de 2025, Israel teria retido as receitas aduaneiras arrecadadas em nome da Autoridade Palestina, dificultando salários públicos. Dezenas de milhares de palestinos ficaram sem emprego desde outubro de 2023, quando Israel deixou de emitir permissões de trabalho. A suspensão do registro de 37 organizações internacionais teria estreitado a resposta humanitária. Aboudi estima que cerca de meio milhão de famílias precisam de assistência alimentar.
O que isso pode mudar
Se a restrição de financiamento se mantiver, o risco é que o corte deixe de ser ajuste temporário e vire pressão estrutural sobre famílias já sem casa, renda ou rede de proteção. O PMA admite que a interrupção não significa inelegibilidade individual e que a ajuda pode ser retomada para alguns, com aviso por mensagem de texto — sem garantia de cobertura plena.
Em linha com Aboudi, retenção de receitas da Autoridade Palestina, desemprego após a suspensão de permissões e limites a organizações humanitárias podem ampliar o número de lares que dormem sem refeição e adiam tratamentos. Sem reposição de recursos, o hiato entre quase 900 mil em insegurança alimentar e 200 mil ainda atendidos tende a crescer no curto prazo, sobretudo entre deslocados do norte e comunidades rurais do sul.
Fontes: Al Jazeera
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