Após venda de US$ 2 bi à Visa, fundador da Tink aposta em compliance com a Freda

Daniel Kjellén, que vendeu a Tink à Visa por US$ 2 bilhões, diz investir o próprio dinheiro na Freda para atacar o freio regulatório que, segundo ele, atrasou a escala da primeira empresa.
Ilustração: Burcu Elmas (Pexels)
Daniel Kjellén poderia estar longe do escritório. Depois de vender a Tink à Visa por US$ 2 bilhões, o empreendedor descreve, em texto publicado na Fortune nesta sexta-feira (24), a liberdade típica de uma grande saída — mudar de país, financiar outras ideias ou simplesmente deixar de responder e-mails de trabalho. Em vez disso, diz estar colocando o próprio dinheiro em um novo projeto.
O alvo é o mesmo tema que, segundo ele, corroeu a velocidade da Tink no crescimento: o compliance, o conjunto de obrigações legais e regulatórias que uma empresa precisa cumprir. Kjellén é hoje diretor-executivo e cofundador da Freda, plataforma que afirma ter desejado ter tido ao escalar a primeira companhia.
O que aconteceu
No relato, Kjellén conta que, nos anos que antecederam e se seguiram à aquisição pela Visa, viu a Tink mudar e perder ritmo de um jeito que muitos fundadores reconheceriam. Ideias que ele e o cofundador Fredrik costumavam esboçar num táxi e lançar em uma semana passaram a exigir checagem por dezenas de pessoas, espalhadas por metade desse número de departamentos.
Ele não rejeita a regulação em si. Pelo contrário: diz gostar de compliance e considerá-lo necessário para uma sociedade que funcione. O que o deixou “desiludido”, escreve, foram os processos. Saiu da Tink aliviado por não ter de pensar nisso outra vez — e, ironicamente, agora pensa nisso todos os dias. Em vez de férias na praia, afirma investir para livrar outros da ameaça de multa ou de um e-mail “urgente” do jurídico.
O diagnóstico vem da escala. Quando a Tink chegou a cerca de 700 pessoas e 19 mercados, a empresa aprendia, segundo Kjellén, uma nova obrigação quase todos os dias — cada uma presumindo que milhares de “caixinhas” anteriores já estavam marcadas. O exemplo que ele usa para empreendedores jovens é prosaico e caro: o último assunto que um fundador de 24 anos quer enfrentar é o registro de imposto sobre valor agregado (VAT) num mercado em que nunca esteve. Nada, escreve, freia tanto uma empresa nascente quanto descobrir, no meio da entrada num país, que o produto prometido ainda não está em conformidade na maior parte dos mercados.
Há também um mito transatlântico que ele diz ter desfeito na prática. Muitos fundadores europeus, conta, veem os Estados Unidos como fronteira onde se constrói primeiro e se pede permissão depois — compartilhamento de dados até o cliente optar por sair, sites sem banner de cookies. A Europa, na sabedoria comum, seria o problema regulatório. Kjellén afirma ter acreditado nisso até levar a Tink aos EUA e achar a reputação incompleta: a Europa tem regra para quase tudo, mas a clareza permite planejar desde o primeiro dia, inclusive com guias sobre adequação ao Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR). Nos EUA, segundo ele, a regulação costuma vir depois do fato — jurisprudência, 50 legislaturas estaduais e contratos comerciais densos —, e a falta de clareza jurídica eleva o custo de disputas. Cruzar o Atlântico vale a pena, conclui, mas com o próprio labirinto.
Sobre inteligência artificial (IA), Kjellén é cético diante de atalhos. Diz ver amigos fundadores testarem a promessa de que “não haverá problema insolúvel” e saírem frustrados quando um sistema de compliance “vibe-coded” se revela pouco melhor do que colar documentos num chatbot. Compliance, argumenta, não é uma coisa única: depende de tamanho, setor, mercados e do que já foi prometido a clientes e reguladores. Obrigações mudam diariamente; a IA só é tão boa quanto o contexto que recebe e, até agora, estaria sempre atrás da velocidade das mudanças — enquanto empresas implantam agentes de IA aos milhares sem que esses sistemas tenham lido a política interna ou a última decisão judicial local.
O que isso pode mudar
Se a aposta pessoal de Kjellén se confirmar, a Freda entraria num ponto sensível da escala de startups e fintechs: transformar compliance de freio cultural em infraestrutura, sobretudo quando a IA avança em setores críticos e a regulação tende, na leitura dele, a ficar mais complexa e mais importante. A hipótese é que quem estruturar conformidade cedo ganhe velocidade de mercado — e que o “problema inacabado” da Tink vire produto para a próxima geração de fundadores.
Ainda assim, o texto é um comentário do próprio CEO, não um balanço independente da Freda nem um mapa de clientes ou métricas. O que fica claro, pela narrativa publicada na Fortune, é a troca deliberada: a liberdade do exit de US$ 2 bilhões convertida em risco próprio sobre o tema que, na visão dele, mais atrapalhou a primeira corrida.
Fontes: Fortune
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