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Vice-chanceler da Noruega pede multilateralismo ante IA e mundo sem hegemon

Vice-chanceler da Noruega pede multilateralismo ante IA e mundo sem hegemon

Andreas Motzfeldt Kravik afirma que a ordem se torna multipolar enquanto a inteligência artificial amplia ameaças sem fronteiras e a cooperação institucional vira condição de segurança.

Ilustração: Yaroslav Shuraev (Pexels)

Em artigo de opinião publicado neste sábado (24) na Al Jazeera, o vice-ministro das Relações Exteriores da Noruega, Andreas Motzfeldt Kravik, descreve a política internacional como um “sonambulismo coletivo” rumo ao abismo. Segundo ele, a inteligência artificial (IA) globaliza e acelera ameaças antigas e novas, nenhum Estado consegue impor ordem sozinho e os blocos geopolíticos endurecem, tratando a cooperação como fraqueza.

O eixo do texto não é a troca clássica de hegemonia entre Estados Unidos e China, mas a aproximação de uma ordem sem hegemon, com vários países e blocos regionais disputando influência — o que a teoria das relações internacionais chama de multipolaridade global.

O que aconteceu

Kravik parte de um debate do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 23 de setembro de 2026, em Nova York, sobre IA e segurança internacional. No artigo, argumenta que a tecnologia transforma sociedades — com inovação e informação cada vez mais ao alcance — e, ao mesmo tempo, enfraquece o controle estatal, ao gerar riscos difíceis de conter.

No campo militar, cita drones baratos e mira assistida por IA como fatores que alteram hierarquias. Como exemplos de poder que não se converte em controle, aponta a incapacidade dos Estados Unidos de forçar o Irã a ceder, apesar do arsenal americano, e o fracasso da Rússia em subjugar a Ucrânia.

Fora do teatro de guerra, o vice-chanceler lista cenários de perda de controle: uma próxima pandemia originada em laboratório oculto e potencialmente bem mais letal que a covid-19; ciberataques devastadores lançados “da garagem de alguém”; sistemas de IA de fronteira que escapam ao domínio humano; barreiras menores ao desenvolvimento de armas nucleares; e proliferação silenciosa de armas biológicas. Ameaças sem fronteiras, diz ele, fazem com que regras nacionais isoladas apenas desloquem atores mal-intencionados para outros países.

O artigo critica estratégias baseadas só em “paz pela força”, primazia regional e jogos de soma zero. Para Kravik, negociar limites mútuos por meio do direito e de instituições internacionais é visto por muitos líderes como ingenuidade, enquanto a corrida por supremacia digital e pela “vitória” na IA se aprofunda — abordagem que, como política global, “pode destruir a humanidade”.

Ele também alerta para o viés de subestimar riscos acumulados. Uma probabilidade anual de 1% de catástrofe global, observa, soa pequena, mas em um século equivale a cerca de 63% de chance — nível que considera intolerável.

Como sinais positivos, menciona o Acordo sobre Pandemias adotado no ano passado pela Organização Mundial da Saúde (OMS); o Acordo BBNJ da Assembleia Geral da ONU sobre biodiversidade em alto-mar, descrito como o primeiro tratado global relevante em ao menos uma década; e o próprio Conselho de Segurança, onde, no debate de setembro, a maioria dos governos e desenvolvedores líderes de IA pediu governança global mais forte e mecanismos de supervisão. Ainda assim, afirma que os Estados investem pouco demais nessas estruturas.

A Noruega, escreve, trata o respeito ao direito internacional e a instituições multilaterais eficazes como interesse central de segurança nacional e investe em reforma da ONU. Em setembro, o primeiro-ministro Jonas Gahr Støre e o presidente finlandês Alexander Stubb lançaram um Apelo à Ação por supervisão e controle globais sobre modelos avançados de IA, com adesões de países de várias regiões.

O que isso pode mudar

Se a leitura de Kravik se consolidar entre capitais, a segurança na era da multipolaridade e da IA tenderia a depender menos de primazia unilateral e mais de padrões globais, inspeções e troca de informações sensíveis entre governos — com papel reforçado de ONU, Organização Mundial do Comércio (OMC), OMS e Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

A hipótese do próprio artigo é que acoplar multipolaridade a multilateralismo será o desafio definidor da época. O risco, admite o vice-chanceler, é que a resolução só venha depois de outra crise em escala de guerra mundial — cenário que ele espera que as gerações atuais consigam evitar.

Fontes: Al Jazeera

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