Dívida em 82,9% do PIB exige ajuste fiscal do próximo presidente após o segundo turno

Com endividamento em alta e projeção da IFI de até 100% do PIB até 2030, campanhas e economistas divergem entre cortes, privilégios e mais tributação sobre rendas altas.
Foto: Malcoln Oliveira (Pexels)
A trajetória da dívida pública brasileira deverá estar entre os principais desafios de quem vencer o segundo turno em 25 de outubro. Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), acima dos 82,6% de julho, em um patamar que reacende o debate sobre como equilibrar as contas sem sufocar investimentos em saúde, educação e infraestrutura.
Economistas de correntes distintas concordam que é preciso melhorar o equilíbrio fiscal, mas divergem sobre onde cortar, como ampliar receitas e quem arcaria com o peso de um ajuste. A Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, projeta que o endividamento poderia chegar a 100% do PIB até 2030 se nada alterar a trajetória atual — cenário condicionado às hipóteses do estudo, não um desfecho automático.
Na disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), as estratégias se opõem: o senador prioriza redução de despesas e do tamanho do Estado; o presidente candidato à reeleição combina crescimento, aperfeiçoamento das regras fiscais e maior tributação nas faixas mais altas de renda. A matéria foi publicada neste domingo (18) pelo Portal Terra da Luz.
O que aconteceu
O aumento contínuo da dívida em relação à capacidade de arrecadação preocupa porque pode elevar o custo de financiamento do Tesouro, pressionar juros e limitar espaço no orçamento. O governo cobre déficits em grande parte com emissão de títulos; parte relevante do estoque remunera investidores conforme a taxa Selic, de modo que a política monetária influencia diretamente o custo da dívida.
Um obstáculo citado no debate é a rigidez do orçamento federal. Carlos Honorato, especialista em planejamento de cenários, afirma que cerca de 95% das despesas estariam comprometidas com obrigações e vinculações — percentual que varia conforme o conceito de orçamento, mas que ilustra a dificuldade de cortes imediatos só em administração, viagens ou publicidade.
O Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (USP), estima que aproximadamente 53% do estoque analisado estaria em títulos pós-fixados atrelados à Selic. Com taxa de juros neutra de 9%, a análise aponta que estabilizar a dívida apenas com cortes de gastos poderia exigir superávits primários superiores a 3% do PIB — metas difíceis sem combinar outras frentes.
Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central (2019–2021), classifica o endividamento como o maior problema econômico do país e defende contenção em Previdência e funcionalismo, incluindo congelamento de reajustes de servidores e suspensão de ganhos reais do salário mínimo, com repasses corrigidos só pela inflação. Honorato, por sua vez, pede revisão de privilégios remuneratórios e questiona subsídios estimados entre R$ 500 bilhões e R$ 600 bilhões, conforme o conjunto de incentivos considerado.
O Made propõe revisar benefícios fiscais e aumentar a progressividade tributária, com projeções acadêmicas — não receitas já aprovadas — como R$ 33,9 bilhões ao eliminar deduções específicas de saúde e educação no Imposto de Renda e R$ 79 bilhões com alíquota efetiva mínima de 15% para rendimentos acima de R$ 250 mil mensais. Flávio Bolsonaro prevê, no programa eleitoral, corte de pelo menos dez ministérios, combate a supersalários, privatizações e ajuste equivalente a 1,5% do PIB, sem detalhamento completo de cronograma e composição. Lula aposta em revisão de isenções ineficientes, tributação de fundos exclusivos e offshores, eficiência nas emendas e queda sustentável da Selic aliada ao crescimento do PIB.
O contexto não é só doméstico: projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) citadas na reportagem indicam que a dívida pública global poderia superar 100% do PIB mundial até o fim da década, puxada pelas grandes economias. No Brasil, mudanças estruturais dependerão do Congresso Nacional, possivelmente com leis complementares ou emendas constitucionais.
Impacto na prática
Para famílias, empresas e investidores, a discussão pode repercutir em juros, câmbio e confiança nos títulos públicos. Uma trajetória de dívida vista como sustentável, em tese, poderia facilitar financiamento e reduzir incertezas; medidas mal calibradas, por outro lado, podem afetar serviços públicos, renda de aposentados e beneficiários de políticas sociais ou o poder de compra de quem depende de reajustes reais do salário mínimo — caminhos defendidos por alguns economistas e contestados em termos distributivos e políticos.
Contribuintes de alta renda e setores com benefícios fiscais poderiam sentir efeitos se o próximo governo priorizar arrecadação progressiva ou revisão de incentivos, conforme as propostas do Made e do programa do PT. Quem aposta em menor Estado, como no plano do PL, poderia ver ênfase em enxugamento administrativo e privatizações, embora analistas alertem que isso sozinho pode não bastar diante das despesas obrigatórias.
No plano internacional, a pressão fiscal em economias avançadas sugere que o Brasil não enfrenta o dilema isoladamente; ainda assim, o país convive com um dos juros reais mais elevados entre as grandes economias, o que torna o custo do endividamento particularmente sensível à credibilidade das metas após a eleição.
Com mandato presidencial iniciando em 2027, a definição de quais medidas entram no pacote, em que prazo e com que apoio parlamentar pode orientar expectativas de mercado já nas semanas seguintes ao segundo turno — período em que Fabio Kanczuk considera mais favorável para apresentar decisões difíceis, ainda que o resultado dependa da composição do Congresso e da adesão política às propostas vencedoras.
Fontes: Portal Terra da Luz
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