Democratas recalibram Israel, gênero e fronteira nas midterms dos EUA

Dois anos após a derrota de 2024, candidatos democratas em distritos disputados revisam posições sobre Israel, direitos trans, imigração e saúde, num partido cada vez mais dividido.
Ilustração: cottonbro studio (Pexels)
Dois anos depois de o eleitorado norte-americano devolver Donald Trump à Casa Branca e derrotar a então vice-presidente Kamala Harris, candidatos democratas em corridas apertadas para as midterms de 2026 estão a rever posições em temas quentes. Segundo a Al Jazeera, o ajuste vai desde o abrandamento do discurso sobre direitos de pessoas transgênero até uma oposição mais dura às ações militares de Israel em Gaza.
As mudanças agradam a parte do eleitorado e afastam outra, enquanto o partido tenta recuperar terreno no segundo mandato de Trump e disputar o controle das duas casas do Congresso, hoje nas mãos dos republicanos. As divisões internas, diz a reportagem, só se aprofundaram.
O que aconteceu
Desde 2024, o establishment e os autointitulados moderados democratas vêm tentando conter uma onda de populismo progressista, impulsionada por grupos como os Socialistas Democráticos da América (Democratic Socialists of America). A pressão por políticas “mais fortes e ousadas” gera diferenças nítidas entre candidatos, conforme o distrito em que concorrem.
O deslocamento mais marcado, na leitura da Al Jazeera, é sobre Israel. Três anos após o início da guerra em Gaza — que a própria agência descreve como “genocida” e atribui a morte de mais de 74 mil palestinos após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 —, pesquisas apontam visão cada vez mais negativa das ações militares israelenses. Um levantamento do Pew Research Center, citado pela reportagem e feito no início deste ano, indicou opinião desfavorável a Israel em 60% dos adultos norte-americanos e em 80% entre democratas.
Nesse ambiente, o senador Chris Coons, democrata de Delaware e possível presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado se o partido retomar a Casa, disse à Politico querer um “exame minucioso” da relação EUA–Israel e até se dispôs a sancionar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Mais cedo neste ano, 40 senadores democratas apoiaram moção que reprovava vendas militares propostas a Israel; só sete democratas votaram com republicanos para bloqueá-la. Já o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer — que tenderia a ser líder da maioria se os democratas vencerem —, reiterou que o compromisso norte-americano com a segurança de Israel “deve ser inabalável”.
Em corridas disputadas para a Câmara ou o Senado, democratas também suavizaram ou rejeitaram o apoio explícito a atletas transgênero em esportes escolares. Em Ohio, a deputada Marcy Kaptur veiculou anúncio em que diz que “meninos não devem jogar em esportes femininos”; na Carolina do Norte, Don Davis falou em espaço “seguro e justo” para mulheres e meninas; na Carolina do Sul, a candidata ao Senado Annie Andrews opôs-se a “homens biológicos” em esportes femininos. A reassentação não é uniforme: na quinta-feira, em Portland, Maine, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez afirmou a um estudante trans que se sentia “abandonado” que comprometer direitos de uma pessoa trans compromete os de todos os cidadãos.
Na imigração, o candidato ao Senado pelo Texas James Talarico se apresenta como democrata de “segurança na fronteira”, após a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (Customs and Border Protection) registrar mais de 8 milhões de encontros na fronteira com o México entre 2021 e 2025. Entre progressistas, após tiroteios de agentes federais em Minneapolis que mataram os cidadãos norte-americanos Renee Good e Alex Pretti, ganhou força o lema “abolir o ICE” — o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (Immigration and Customs Enforcement). Na saúde, há convergência sobre maior intervenção estatal, mas o caminho diverge: Abdul El-Sayed, no Michigan, defende Medicare for All; Andrews pede o retorno de subsídios do Affordable Care Act. Pesquisa da organização independente KFF apontou 66% de apoio adulto ao Medicare for All, alta de 13 pontos desde outubro de 2020.
O que isso pode mudar
Se as midterms confirmarem a penetração desses ajustes em distritos-chave, os democratas poderiam, em tese, reconquistar margem no Congresso com um discurso mais heterogêneo — e, ao mesmo tempo, aprofundar a disputa interna entre liderança e ala progressista sobre Israel, fronteira e direitos civis.
Um Senado com mais vozes críticas a Israel poderia pressionar vendas de armas e a relação bilateral, embora a resistência de figuras como Schumer sugira teto político. Já o recuo em direitos trans pode ampliar o eleitorado moderado e alienar bases jovens e LGBTQIA+. O resultado, ainda hipotético, depende de quanto o partido consegue unificar mensagem sem parecer inconsistente diante de Trump.
Fontes: Al Jazeera
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