Dólar no pico de 18 meses deixa Trump com mão fraca às vésperas das midterms

Coluna da Reuters mostra a contradição da Casa Branca: o câmbio sobe enquanto a agenda pede moeda mais fraca para indústria, exportação e déficit.
Às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, o dólar em alta expõe uma contradição central da política econômica de Donald Trump: o mercado de câmbio entrega o oposto do que a Casa Branca gostaria. A leitura é da coluna Reuters Open Interest publicada neste sábado (17) pelo colunista Jamie McGeever, de Orlando, na Flórida.
O recorde recente da moeda americana — o nível mais forte em 18 meses ante pares principais, segundo McGeever — deveria, no ditado de mercado, sinalizar confiança na economia. Na prática, um câmbio que aprecia barateia importações, encarece exportações e complica o discurso de reindustrializar o país e encolher o déficit comercial.
Enquanto isso, pesquisas citadas na coluna apontam aprovação raramente tão baixa da gestão da economia. Mercados de apostas, ainda segundo McGeever, apontam para a possibilidade de o Partido Republicano perder o controle da Câmara dos Representantes e, talvez, do Senado.
O que aconteceu
McGeever lembra que a política comercial e industrial do segundo mandato de Trump mira retomar a manufatura, “fazer as exportações americanas grandes de novo” e reduzir o saldo negativo do comércio. Um dólar que se fortalece vai na direção contrária de todos esses objetivos.
O próprio balanço comercial não se estreita como o governo projetava. As importações dispararam a recordes, em grande parte porque empresas americanas compram chips, equipamentos e bens para a expansão da inteligência artificial. O déficit, que no começo do ano estava em 2,7% do PIB — uma das menores marcas do século, segundo a coluna —, pode caminhar para 4% do PIB no ano que vem, na estimativa de Dean Maki, da gestora Point72, reproduzida pela Reuters.
O dólar chegou a enfraquecer no primeiro ano da volta de Trump ao Salão Oval, em meio a temores de “desvalorização” da moeda e a um humor de “venda dos EUA” associado às tarifas. Esse movimento se inverteu. A explicação de McGeever é relativa: o câmbio compara países, e o dólar hoje seria a “camisa suja mais limpa” entre as economias avançadas.
França, Japão e o sonho da IA
Os Estados Unidos convivem com dívidas e déficits elevados. O mesmo vale para outros desenvolvidos. Na França, investidores temem que Paris não tome medidas politicamente duras para controlar o orçamento — e punem o euro. No Japão, a preocupação de que juros mais altos tornem quase impossível rolar uma dívida enorme mantém o iene perto de mínimas históricas, escreve McGeever.
Resultado: o dólar “ganha” tanto por omissão dos rivais quanto pelo fluxo global de capital atrás do sonho americano de inteligência artificial. Não era o desenho desejado pela Casa Branca. Trump e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, querem um dólar mais fraco, ainda que décadas de política quase oficial de “dólar forte” — desde Robert Rubin, nos anos 1990 — dificultem admitir isso em público.
O manual de Miran e o fantasma de Plaza
A visão da administração sobre a moeda, segundo a coluna, já estava no paper de 41 páginas A User’s Guide to Restructuring the Global Trading System, de Stephen Miran, então estrategista sênior da Hudson Bay Capital. Miran presidiu o Conselho de Assessores Econômicos de Trump, teve passagem curta como governador do Federal Reserve e voltou à gestora. O texto ainda funcionaria, na leitura de McGeever, como esqueleto da política de comércio, câmbio e economia.
O roteiro ficou conhecido como “Acordo de Mar-a-Lago”, eco ao Acordo de Plaza de 1985, quando as principais potências combinaram desvalorizar o dólar. Miran escreveu que a insatisfação com a ordem econômica vigente “está enraizada na sobrevalorização persistente do dólar”, que torna as exportações americanas menos competitivas, barateia importações e pune a indústria. Na posse de Trump, em janeiro de 2025, a taxa de câmbio efetiva real ampla do dólar era a mais forte em mais de 30 anos, cita McGeever — e reconhece que o diagnóstico tem fundamento.
Miran argumenta que comércio e finanças globais podem ser redesenhados em benefício dos EUA, mas o caminho “é estreito” e exige execução precisa para minimizar efeitos colaterais. O eleitor das midterms, sugere a coluna, pode não ter essa paciência.
Tarifas, Irã e o bolso das famílias
A economia americana ainda cresce em ritmo saudável e o desemprego segue baixo, na descrição de McGeever. As famílias, porém, sentem o lado adverso de dois anos de política: tarifas elevaram o custo de bens importados, segundo estudo recente do Federal Reserve de Nova York citado na coluna; a guerra dos EUA com o Irã, iniciada em fevereiro, empurrou energia para cima, em especial o diesel recorde na bomba. Inflação permanece elevada, os yields dos Treasuries estão no maior patamar em um quarto de século e os salários reais agora recuam.
A pergunta que McGeever deixa no ar é se o público americano dará espaço para a Casa Branca tentar virar a maré do dólar.
A história, lembra ele, sugere que reverter uma alta ampla da moeda exige ação multilateral e coordenada — o oposto da visão “America First”. Gestos bilaterais, como a intervenção recente do Tesouro com o Japão para sustentar o iene, tendem a ser pequenos demais para efeito duradouro. Novas intervenções não estão descartadas se o dólar seguir subindo.
Stephen Jen, CEO da Eurizon SLJ Asset Management, escreveu em maio que uma sequência de “mini-intervenções” surpresa poderia limar o dólar sem desencadear uma avalanche de depreciação. “O desafio, claro, é guiar o dólar para baixo sem assustar os mercados de capitais.” Antes da ação deste ano no iene, a última coordenação EUA–Japão para vender dólares contra a moeda japonesa foi em 1998. O Fed, o BCE e outros bancos só intervieram juntos para sustentar o euro no fim de 2000.
Desde o câmbio flutuante dos anos 1970, quando Richard Nixon tirou o dólar do ouro, só houve dois esforços globais de verdade para mudar o valor amplo da moeda: Plaza (1985) e o Acordo do Louvre (1987), que amainou o primeiro. McGeever observa que o dólar de agora nem chega perto da força daquela época — e aquele era um tempo em que a cooperação multilateral ainda estava na moda.
Impacto na prática
Para o trabalhador e o consumidor americanos, um dólar forte pode baratear parte do que vem de fora, mas também pode conviver com inflação de tarifas e energia — o mix que McGeever descreve como já sentido no cotidiano. Em tese, se o déficit comercial se aproximar de 4% do PIB, como aventa Maki, o ajuste futuro pode vir por câmbio, juros ou atividade, sem garantia de qual canal prevalece.
Fora dos EUA, um dólar que sobe por ser a “camisa menos suja” pode, em hipótese, pressionar moedas de países emergentes e o preço em moeda local de combustível, eletrônicos e insumos cotados em dólar. No Brasil, o par USD/BRL era negociado perto de R$ 5,07 neste sábado, segundo dados da Yahoo Finance usados na faixa de cotações do Mundo dos Negócios — um recorte de mercado, não uma previsão da coluna da Reuters. Se o DXY seguir firme, o efeito sobre o real e sobre a inflação de importados pode aparecer na margem; não é fato automático.
Indústrias americanas que exportam sentem o câmbio na competitividade. Importadores e cadeias de chips, ao contrário, encontram poder de compra. O eleitor de novembro, se a coluna estiver certa, julga menos o DXY e mais o diesel, o supermercado e o salário que não acompanha os preços.
McGeever fecha com uma hipótese política: a força relativa do dólar nos dois anos finais do atual ciclo Trump pode dizer quanto da agenda econômica de quase uma década na Casa Branca de fato avançou. É opinião de colunista, não veredito de urna.
Fontes: Jamie McGeever / Reuters Open Interest (17/10/2026) · TradingView (repasse Reuters) · Dean Maki / Point72 (via Reuters) · Stephen Miran, A User’s Guide to Restructuring the Global Trading System, Hudson Bay Capital · Federal Reserve de Nova York (estudo de tarifas citado por McGeever) · Stephen Jen / Eurizon SLJ Capital (maio/2026, via Reuters) · Acordo de Plaza (1985) e Acordo do Louvre (1987) · intervenção EUA–Japão no iene (1998 e 2026) · intervenção Fed/BCE no euro (2000) · Yahoo Finance — índice do dólar (DXY) · Mundo dos Negócios / Yahoo — USD/BRL
A coluna original é opinião do autor na Reuters, não análise da redação. Números de pesquisa, apostas e comércio são os reproduzidos por McGeever, salvo o câmbio à vista identificado como Yahoo.