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Economistas revisitam Depressão e Revolução Industrial para ler a IA no trabalho

Economistas revisitam Depressão e Revolução Industrial para ler a IA no trabalho

Reportagem do Times no InfoMoney mostra como 1931, a Revolução Industrial e a Depressão orientam o debate atual sobre inteligência artificial e emprego.

Ilustração: Yaroslav Shuraev (Pexels)

Quase um século depois de economistas reunidos em Washington alertarem que a tecnologia avançava “mais rapidamente do que em qualquer época anterior”, uma nova geração de pesquisadores volta aos mesmos dilemas — desta vez diante da inteligência artificial (IA). A reportagem de Ben Casselman no The New York Times, republicada pelo InfoMoney em 25 de outubro de 2026, mostra como episódios da Revolução Industrial à Grande Depressão voltam ao centro do debate sobre emprego, distribuição de ganhos e o papel dos governos.

Em dezembro de 1931, no encontro anual da Associação Econômica Americana, Sumner H. Slichter, de Harvard, insistia que a mudança tecnológica era um “grande problema social” pouco reconhecido. Operadoras de telefonia cediam lugar à discagem automática, músicos de cinema aos filmes falados e condutores de carroças a caminhões a gasolina. Hoje os ofícios mudaram — programadores, roteiristas, motoristas de caminhão a diesel —, mas as perguntas, segundo o texto, permanecem: quem captura os benefícios, se novos postos chegam a tempo e o que a política pública pode fazer.

O que aconteceu

O encontro de 1931 ocorreu com o desemprego nos Estados Unidos próximo de 20%, nível que chegaria a 25% no ano seguinte. Ewan Clague, que mais tarde comandaria o Bureau of Labor Statistics, advertiu que mudanças tecnológicas poderiam ser tão rápidas que “todos os fatores de produção” ficassem desempregados ao mesmo tempo e perguntou se não seria possível tributar máquinas para desacelerar o desenvolvimento — proposta que o texto compara ao debate atual sobre IA.

Nos anos 1920, a troca de centrais manuais por sistemas automáticos eliminou dezenas de milhares de postos, em geral de mulheres jovens. Antes de 1929, muitas encontravam outra ocupação com relativa rapidez; um relatório do Bureau de 1932 registrou pouco desemprego tecnológico na expansão pré-crise. Na Depressão, a recolocação ficou mais difícil. Já a substituição gradual de carroças por caminhões deu tempo a jovens para migrar; salários de profissionais mais velhos que permaneceram chegaram a subir, segundo Kevin Lang, da Universidade de Boston.

Na Inglaterra, máquinas de debulha adotadas na escassez de mão de obra das Guerras Napoleônicas deixaram sem renda homens que voltavam dos campos — detonando os Swing Riots dos anos 1830, mais intensos, no relato citado, que os protestos luditas. Bruno Caprettini observa que manifestações foram mais comuns em regiões isoladas; perto de centros urbanos, com alternativas de emprego, foram mais brandas.

Um estudo de 2024 apontou que mulheres que perderam o emprego na automação telefônica tinham menor probabilidade de seguir no setor uma década depois; muitas deixaram o mercado e quem se recolocou costumava ganhar menos. A transição telefônica costumava ocorrer à meia-noite de um sábado: emprego na sexta, desemprego na segunda.

Nem toda transformação apaga postos. Em 1851, cerca de 220 mil pessoas fabricavam botas na Inglaterra; sessenta anos depois o número era quase o mesmo, mas artesãos deram lugar a operários urbanos com mais produtividade — o Paradoxo de Jevons, na leitura de Hillary Vipond. Segundo estimativa citada, cerca de 60% dos empregos nos EUA em 2018 estavam em ocupações inexistentes em 1940. Ainda assim, a Revolução Industrial deixou salários deprimidos por décadas no chamado Engel’s Pause. Quase 200 economistas, em carta recente referida no texto, alertaram para cenários que vão de ganhos próximos aos da internet até uma transformação “maior do que a Revolução Industrial”, em prazo mais curto.

Impacto na prática

Para quem trabalha hoje, o paralelo histórico sugere que o risco maior pode não ser só a extinção do emprego, mas a velocidade e o contexto da troca. Quando a economia está fraca, a mesma automação que em expansão gera “pouco desemprego” pode, em tese, deixar a recolocação mais difícil — como no contraste pré e pós-1929 das telefonistas. A IA ameaça áreas antes vistas como protegidas, a exemplo de desenvolvimento de software e serviços jurídicos, e Amy Bix, da Universidade Estadual de Iowa, vê incerteza “muito parecida” à da Depressão.

Em hipótese, um país cuja inserção internacional dependa de call centers, suporte técnico ou serviços administrativos — atividades que o texto aponta como vulneráveis à difusão global da IA — poderia sentir a pressão antes de novos ofícios se consolidarem. Kevin Lang alerta que, se a tecnologia eliminar parcela significativa de empregos de escritório, ainda não está claro o que os substituirá. Ben Schneider, da Universidade de Oslo, lembra que a história oferece pistas, não respostas definitivas.

A maioria dos economistas citados não trata a IA como o fim do trabalho, mas admite que as disrupções podem superar as de revoluções anteriores. Se o padrão histórico se repetir, ganhos amplos de produtividade poderiam coexistir, com transições dolorosas para quem vive a troca no presente — hipótese que Schneider resume ao notar que o que “valeu a pena” para gerações posteriores talvez não tenha sido assim para quem atravessou a ruptura.

Fontes: InfoMoney

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